Carlos Castelo

Crônicas publicadas no projeto.

Kabu Verdi, nhamor

Tudo começou com Cesária Évora. A voz dela chegou primeiro, como chegam certas brisas marítimas: sem pedir licença. Depois vieram Assol Garcia, Bau, Humbertonia, Teófilo Chantre, Tito Paris e uma infinidade de músicos que transformam saudade em melodia e fazem o Atlântico parecer um instrumento de cordas. Sempre achei difícil explicar a sonoridade cabo-verdiana. É como se o samba tivesse

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Pergentino e a Copa

Mensagem que recebi no zap do meu avô, Pergentino Castelo, depois do jogo entre Brasil e Marrocos: “Nunca testemunhei desgraçamento esportivo tão estragoso quanto o tal do Galvão Bueno desembarcado no SBT para narrar Copa do Mundo. Dantes, futebol era coisa de respeito, de silêncio religioso, cada torcedor escutando o chute da redonda como quem ouve conselho de avô moribundoso.

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Deadline

Existe um prazo para cortar alguém da Seleção. O curioso é que não existe prazo para descobrir se ele pode jogar. Hoje é o último dia. A burocracia, que quase nunca entra em campo, está aquecida. Neymar continua sem ser testado. Não se sabe se corre, se para, se muda de direção ou se apenas contempla a possibilidade de tudo

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Sexto lugar

Começou a Copa e, como manda a Constituição, todo brasileiro é obrigado a dar um palpite. O meu: o Brasil termina em sexto lugar. Por que sexto, exatamente? Porque sexto é o número da estrela que não vem. Há uma simetria nisso que a FIFA ainda não estudou. Explico. Ou finjo que explico, que em matéria de Copa dá no

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Leivinha

Certos jogadores passam pelo campo. Outros passam pela vida da gente. Leivinha pertence à segunda categoria. Na adolescência, quando o mundo ainda era um lugar provisório e os heróis moravam a poucos quilômetros de casa, eu o via entrar em campo com aquela leveza que parecia desafiar a gravidade. Tinha algo de pássaro em seus movimentos. Os cronistas esportivos falavam

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A convocação de Pinguela

A notícia caiu sobre o país como uma bomba atômica: — Neymar está fora da Copa. A comoção durou três horas e meia. Então veio a segunda notícia: — Para o lugar de Neymar, a comissão técnica convocou Pinguela. Pinguela jogava no Humaitá, do Acre. O time perdia tanto que, nos sorteios do campo, o juiz perguntava ao capitão: “Vocês

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A pátria em chuteiras ortopédicas

Carlo Ancelotti recebeu a notícia da contusão coletiva da Seleção com serenidade. Fez apenas uma pausa, tomou um gole de café e perguntou, naquele português ainda em fase beta: — Sobrou alguém que tenha dois joelhos? Sobrou. Weverton, Wesley, Bremer, Léo Pereira, Douglas Santos, Fabinho, Danilo Santos, Lucas Paquetá, Luiz Henrique, Endrick e Igor Thiago. E, por razões que só

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Habemus Ney

No Brasil, existe uma superstição antiga segundo a qual o técnico da Seleção Brasileira escolhe os jogadores. É uma crença simpática, como Papai Noel, meritocracia ou fila organizada em caixa preferencial. Na prática, a Seleção é escalada pela mesma entidade que decide o horário da novela e a duração do Carnaval: a Rede Globo. Carlo Ancelotti, pobre italiano de sobrancelhas

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SOFÁ, A ARQUIBANCADA DO RECALQUE

Sim, o Palmeiras não conseguiu o Mundial. Outra vez. Para o Chelsea. Outra vez. E, como sempre, pipocam nas redes sociais as mesmas vozes satisfeitas, com os mesmos memes reciclados e a mesma risadinha de quem nunca foi chamado pra festa, mas grita da calçada que a música lá dentro está ruim. Aos secadores de sofá, ofereço um brinde: um

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É campeã!

Foi num tempo nada politicamente correto. Eu tinha dez anos e uma grande expectativa: nossa 5ª A jogaria uma partida de futebol contra a 5ª B – o evento seria em homenagem ao Dia das Mães. A apreensão estava ligada a meu desempenho esportivo. Nunca fui bom em Educação Física. Em futebol, então, era uma espécie de anti-Garrincha: surpreendia –

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