No Brasil, existe uma superstição antiga segundo a qual o técnico da Seleção Brasileira escolhe os jogadores. É uma crença simpática, como Papai Noel, meritocracia ou fila organizada em caixa preferencial. Na prática, a Seleção é escalada pela mesma entidade que decide o horário da novela e a duração do Carnaval: a Rede Globo.
Carlo Ancelotti, pobre italiano de sobrancelhas aristocráticas, desem-barcou no Tom Jobim com aquela expressão típica dos europeus que acreditam ter sido contratados para um cargo real. Achava que treinaria futebol. Ingênuo. Em menos de quarenta e oito horas já havia compreendido que seu trabalho consistia apenas em balançar a cabeça enquanto algum vice-diretor de conteúdo decidia se o ponta-esquerda precisava ter boa conexão emocional com o público do Sudeste.
Consta que a primeira reunião técnica ocorreu numa sala sem janelas, onde lhe apresentaram um PowerPoint chamado “Brasil 2026: Jornada de Engajamento”. Havia gráficos, mapas de audiência e uma simulação em 3D mostrando quantos pontos no Ibope um drible do Neymar pode-ria render entre o Jornal Nacional e a novela das nove.
— Ma o Neimá tá strupiatto! — teria arriscado o italiano.
Alguém então explicou ao estrangeiro que, no Brasil, o joelho de Neymar é apenas um detalhe clínico; sua presença na Seleção é um ativo institucional, como a bandeira nacional. Se o rapaz estiver sem condições de jogar, joga em flashback. O importante é aparecer sorrindo no teaser de domingo.
A influência da Globo no país já atingiu níveis litúrgicos. Presidentes da República passam a existir apenas depois de participar do “Fantástico”. Ministros do Supremo esperam ansiosamente pela aprovação tácita de uma comentarista político. E há deputados que mudam de ideologia conforme a escalada do “Jornal da Globo”.
No Brasil profundo então, muita gente não acredita em Apocalipse. Acredita em plantão da Globo.
Ancelotti descobriu tudo isso aos poucos. Primeiro estranhou que a lista de convocados viesse acompanhada de orientações sobre corte de cabelo e potencial para merchandising de shampoo e pasta de dente. Depois percebeu que os amistosos eram marcados pela
compatibilidade com a grade da novela das sete. Um clássico contra a Argentina às quatro da tarde? Impossível. Derrubaria a audiência da reprise de “Escrava Isaura”.
No fim da semana, Carletto já estava domesticado. Sentava-se em silêncio, bebia cafezinho, tragava seu vape, e concordava com tudo. Quando sugeriu convocar um volante brasileiro que atuava brilhante-mente na Itália, ouviu a pergunta fatal:
— Mas ele tem carisma para o “Domingão”?
Ali compreendeu o destino irrevogável do futebol brasileiro: não ven-ce quem joga melhor. Vence quem cabe melhor no intervalo comercial.