A convocação de Pinguela

A notícia caiu sobre o país como uma bomba atômica:

— Neymar está fora da Copa.

A comoção durou três horas e meia. Então veio a segunda notícia:

— Para o lugar de Neymar, a comissão técnica convocou Pinguela.

Pinguela jogava no Humaitá, do Acre. O time perdia tanto que, nos sorteios do campo, o juiz perguntava ao capitão: “Vocês preferem perder para aquele lado ou para este?”

Em nove jogos disputados, o Humaitá tinha zero pontos no Brasileirão. Nenhuma vitória, nenhum empate, e nove derrotas, com saldo de gols de menos 33 (quatro gols marcados e 37 sofridos).

Os repórteres correram atrás do jogador. Encontraram-no numa praça de Rio Branco.

— Pinguela, o que achou da convocação?
— Convocação pra quê?
— Para a Seleção.
— Ah. Pensei que fosse para o mutirão da dengue.

A apresentação na Granja Comary foi um espetáculo.

Os demais jogadores chegaram em carros luxuosos. Pinguela veio num ônibus interestadual e trouxe uma sacola com três camisetas, uma rede e um pote de farinha.

No primeiro treino, os jornalistas observavam com curiosidade.

— Ele deve ter alguma característica secreta — comentou um analista.
— Talvez visão de jogo.
— Talvez velocidade.

A verdade apareceu logo no primeiro coletivo.

Pinguela recebeu a bola sozinho diante do goleiro, tropeçou no gramado, perdeu o chute e acertou o bandeirinha.

O mister aplaudiu.

— Excelente.
— Excelente? — perguntou um repórter.
— Ninguém vai esperar isso dele.

Nos dias seguintes, surgiu uma teoria. A convocação era psicológica.

Os adversários, de fato, passaram dias pesquisando vídeos. Só que não havia muito o que estudar. As imagens mostravam Pinguela perdendo gols, escorregando, cabeceando para trás e, numa ocasião memorável, comemorando um arremesso manual como se fosse um título.

As seleções rivais entraram em colapso.

— Só pode ser uma armadilha — concluíram.
— Ninguém convoca esse peladeiro sem um plano.

Chegou a estreia da Seleção. Estádio lotado. Torcida apreensiva.

Aos 43 minutos do segundo tempo, empate sem gols.

Então aconteceu. Um cruzamento de Vini Jr. atravessou a área. Pinguela correu. Ou melhor, tentou correr. Escorregou. Girou involuntariamente. A bola bateu em seu joelho esquerdo, depois no direito, então acertou o juiz do VAR e ricocheteou na direção do arqueiro.

Gol.

O país explodiu. Narradores perderam a voz. Comentaristas, a lógica. Crianças passaram a pedir corte de cabelo “estilo Pinguela” (uma cuia era colocada no cocuruto e raspava-se o que havia sobrado em volta).

Na entrevista, após o jogo, perguntaram ao herói improvável:

— Você planejou aquele lance?
— Qual deles?
— O gol.
— Aquilo foi gol?

E foi assim que Pinguela, centroavante reserva do pior time da Série D, virou esperança nacional.

O Humaitá continuou sem vencer uma partida no Brasileirão. Mas faturou algo muito mais valioso. Virou fornecedor oficial de atacantes da Seleção Brasileira.

E, pela primeira vez na história do futebol, a frase “ele veio do lanterna” deixou de ser defeito e passou a entrar no currículo.

Compartilhar:

Curta nossa página no Facebook e acompanhe as crônicas mais recentes.