O futebol

Esporte bonito o tal do futebol. Vinte e dois atletas correm atrás de uma bola com o objetivo de furar o gol uns dos outros. Em cada partida há um misto de arte individual, de estratégia coletiva, de sorte, portanto, também de azar. Algumas se tornam perturbadoras, são uma espécie de tragédia, um teatro sem roteiro. É verdade que esse aspecto heroico não é exclusivo do futebol, todo esporte tem um pouco dele, mas o nosso futebol e o americano são aqueles, depois do rugby, nos quais mais atletas disputam a partida. Isso contribui para o espetáculo. Não estamos diante de um monólogo, típico do tênis, por exemplo. É um teatrão.

Fora das quatro linhas — expressão de triste memória — o futebol não é nada bonito. Politicagem, corrupção, exploração, jogo de interesse são elementos que sujam o velho esporte bretão. Na Copa recém-terminada, até mesmo um bufão, o presidente da “maior” democracia do mundo agindo como um ditador mequetrefe, meteu o dedo e vilipendiou as regras do campeonato. Um jogador expulso pôde voltar a campo. No Brasil chamamos essa interferência de tapetão, mas no cenário grandiloquente a que assistimos a essa tremenda interferência, tapetão é pouco. Seria melhor dar outro nome, talvez menos metafórico e mais direto: roubo e submissão.

A FIFA é uma instituição que faz e acontece nos locais nos quais comanda os campeonatos.
Há relatos muito sólidos da corrupção que promovem na preparação dos países para receber os jogos. Investem em estádios que mofarão, por exemplo. Investir é modo de dizer, mexem os pauzinhos para que os elefantes brancos sejam erguidos, tampando os olhos para os 10% para cá e para lá, principalmente se caem na conta da instituição ou de seus comandantes. A CBF não é muito diferente. Não à toa, essas instituições têm dirigentes que amargam ou amargaram um bom período no xilindró. E os interesses externos às instituições se sobrepõem sobre quaisquer outros. Basta ver quem circula em volta delas. Recentemente, foram divulgados casos de espionagem de um grupo político contra o outro na confederação brasileira. Não por amor ao esporte, mas sim pela grana que gira em torno dele. A CBF é rica, rica, mas muito rica. E a FIFA é arquimilionária.

O atual presidente da FIFA , na figura de capacho de Trump, assistiu a praticamente todos os jogos da COPA. Se não era um clone ou um ser produzido por IA, é um milagre. Mas, creiam, vocês que aqui me leem, não é por gostar de bola. Ele está ali quase como um auditor, precisa saber se o dinheiro vai escorrer direitinho para o cofre da instituição, dando-lhe mais poder. No momento, ele cheira Portugal, Espanha e Marrocos, países-sede do próximo encontro entre as melhores seleções do mundo. Se os times serão bons, ele não se importa. Se algum poderoso impuser alguma decisão a ele, ele a aceitará. Regras e bom jogos são detalhes. O que interessa é o dinheiro, estúpido.

Apesar disso, o futebol é lindo. Nessa Copa, a disputa do terceiro lugar, um jogo quase sem compromisso, um peladão cujo ingresso custava os olhos da cara, foi maravilhoso. A Inglaterra mostrou seu jogo objetivo, sem requebros. A França exibiu sua malemolência, antes coisa só nossa. O trio de atacantes franceses baila em campo. Os bons jogadores ingleses partem para uma linha de frente de uma guerra antiga, ainda feita no corpo a corpo.
Já a final, repetindo tantas outras, foi aquele jogo fechado. A Espanha dominando o controle da bola, exibindo seus passes perfeitos. A Argentina se defendendo, esperando a chance de morder o rabo do cachorro. Ganhou quem merecia.

Estou feliz com a vitória da Espanha, ainda que eu, em tese, torcesse para um sul-americano. O fato de a Argentina não se aproximar muito de nós em número de títulos é bom. Ganhamos mais uma chance. Que um milagre aconteça e finalmente seja formada uma verdadeira seleção nacional.

Mas posso apostar… bem, melhor não falar em apostas.

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