Espanha no campo; Legados no coração

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– Papai, quero uma camisa da Espanha!

– Ué, virou espanhol agora? – respondi, meio em choque.

– Vou torcer pela Espanha domingo junto com meus amigos!

Em minutos, a surpresa virou uma caçada contra o tempo. Estávamos no shopping e tínhamos três opções: a loja das Três Listras, uma de artigos esportivos e até uma streetwear cheia de tênis e camisetas descoladas.

Nada! Nem sombra da Espanha.

No meio da praça de alimentação, rodei todos os e-commerces possíveis; a tal entrega a jato só chegaria na segunda-feira, quando a emoção da Copa já seria passado e a camisa, um pequeno detalhe entre um meme do Messi com Yamal bebê e a cabeleira de um gato.
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Dizem algumas pesquisas, sem muita metodologia envolvida, que nossa primeira paixão pela bola surge entre os 9 e os 11 anos, quando acompanhamos nossa primeira Copa do Mundo. Com alguns, pode acontecer antes, mas a idade determinante está ali, no começo da transição para os nossos “Anos Incríveis”. Entre amores pueris, cartas de Pokémon e quadrinhos da Turma da Mônica, descobrimos a paixão pelo futebol. Ela pode vir arrebatadora, quando qualquer jogo de várzea te traz emoção, ou aparecer a cada quatro anos, quando o ódio e o amor pela Seleção resolvem dividir o mesmo sofá.

Somos assim. Anos depois, ficam as lembranças das nossas Copas e passamos a entender os nossos “porquês”.
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Sábado de manhã, dez horas. Talvez alguns minutos antes, pois as portas das lojas sequer haviam se levantado. Visita ao segundo shopping com o mesmo roteiro: a loja das Três Listras, a de artigos esportivos e a streetwear.

Nada! Nem sombra da Espanha.

Eu esperava que as camisas da Argentina estivessem esgotadas e que o Messi fosse mais popular entre os pequenos torcedores mirins.

Uma vendedora me contou, ao pé do ouvido, que havia cinco peças numa das lojas da Oscar Freire. Ela me pediu para esperar a confirmação, mas a ansiedade não deixou. Algumas estações de metrô adiante, chegou uma mensagem no celular: “A camisa do seu filho está separada no caixa da loja. Bom jogo, Mel.”

Dezesseis horas depois daquele pedido inesperado, missão cumprida.
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Quando o Brasil sai de cena, ainda temos escolhas e o futebol continua ensinando alguma coisa.

Vamos falar de colonização? Vamos falar de racismo? Vamos falar das guerras do anfitrião? Quase não precisa: os fatos estão aí.

Argentina, Espanha, Inglaterra, França, Estados Unidos, Brasil. Todos carregam histórias de colonização, de exclusão, de preconceito e guerras. Nós mesmos somos um país racista, fingindo que não somos ou que não é com a gente.

Não se pode ficar mudo na arquibancada, porque, no fundo, quando a bola rola, as camisas têm as mesmas cores.
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No domingo, ainda cedo, lembrei dos legados, daqueles que viraram largados após a Copa-14 e Rio-16, deixando nosso esporte ainda longe de ser potência.

Pensei também nos legados desta Copa, muito além dos álbuns de figurinhas: decidir o canal onde assistir aos jogos; dormir no sofá no meio do jogo contra o Haiti; chamar os amigos para sofrer juntos contra o Japão; criar as primeiras superstições para sair o gol do Brasil, entre outras coisas. Era o mais novo torcedor mirim que nascia na minha casa.

Percebi que o meu torcedor mirim era mais corajoso que eu. Sem eira nem beira, decidiu que queria uma camisa da Espanha e a usaria junto com seus amigos. Eu, que tinha duas na coleção, jamais teria cogitado tamanha audácia quando se definiu o duelo entre Argentina e Espanha.

A minha emoção da Copa 2026 não veio das ilhas de Cabo Verde; tampouco do choro do CR7 ou da remada do barco viking. Veio com a escolha de uma das minhas camisas da Espanha para assistir ao jogo com os amigos do meu torcedor mirim. Veio com as dezenas de meninos, cada um com sua camisa, Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Brasil, Barcelona, Bayern, enfileirados, nada comportados, com os olhares direcionados a uma pequena televisão.

De longe, eu, com olhos dos quarenta, olhava para uma versão de mim mesmo com os olhos daquela infância que foi e se foi. Na hora do gol, dois sentimentos vestidos de Espanha trocaram um sutil joinha e entenderam que não era só Futebol.

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