Lionel messiânico

Lionel Messi virou uma dessas unanimidades que dispensam argumento. Basta pronunciar seu nome e surge um coro de reverência, como se discordar fosse delito esportivo. O problema das unanimidades é que elas aposentam o senso crítico.

Messi sempre foi um gênio com a bola. Mas o culto ao personagem acabou maior que o jogador. Em torno dele construiu-se uma redoma onde derrotas viram acidentes, atuações discretas recebem explicações metafísicas e qualquer toque de primeira é logo promovido a obra-prima. Quando a idolatria entra em campo, a análise vai para o banco.

Há algo de curioso nesse fenômeno. Exige-se dos outros craques liderança, explosão, carisma, enfrentamento. De Messi, basta existir. O silêncio virou virtude, a economia de gestos se transformou em filosofia e a discrição ganhou status de grandeza moral. Nem sempre. Às vezes é apenas silêncio mesmo.

A imprensa colaborou com entusiasmo. Durante anos, tratou cada partida como um novo capítulo de uma biografia canonizada. Quem ousava apontar um jogo comum era acusado de não entender futebol. O fã confunde admiração com santidade.

Messi merece lugar entre os maiores da História. Mas transformá-lo em entidade intocável empobrece o debate e diminui o próprio esporte. Afinal, até os gênios jogam mal de vez em quando. O problema não é Messi. É a devoção de quem parou de enxergar o homem para adorar o mito.

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