Carlo Ancelotti recebeu a notícia da contusão coletiva da Seleção com serenidade. Fez apenas uma pausa, tomou um gole de café e perguntou, naquele português ainda em fase beta:
— Sobrou alguém que tenha dois joelhos?
Sobrou.
Weverton, Wesley, Bremer, Léo Pereira, Douglas Santos, Fabinho, Danilo Santos, Lucas Paquetá, Luiz Henrique, Endrick e Igor Thiago. E, por razões que só a CBF e o espiritismo kardecista explicam, o banco seria composto pelo time do Olaria.
O anúncio causou estranheza no mundo inteiro. Na Espanha, o jornal Marca publicou: “Ancelotti tenta algo revolucionário: ter jogadores na Copa”. Já no Brasil, ninguém achou tão absurdo. O torcedor brasileiro está acostumado a ver escalações montadas por sorteio e até por vingança.
Ancelotti reuniu o grupo no hotel. Disse que, acima de qualquer esquema tático, queria comprometimento. Wesley perguntou em qual lado do campo ele jogava. O treinador respondeu:
— Qualquer um. Hoje somos todos laterais.
A preparação foi intensa. Paquetá treinou passes de trivela e também como olhar de forma inocente para as câmeras. Endrick treinou finalizações e entrevistas maduras. Fabinho passou metade do treino tentando explicar para os jogadores do Olaria que “linha alta” não era uma estação do metrô.
O Olaria, aliás, incorporou o espírito da Copa imediatamente. Três reservas tiraram foto na academia com a legenda “foco, Senhor”. Um gandula pediu aumento de cachê. E o roupeiro já negociava participação no podcast do Charla.
No vestiário, antes do jogo contra Marrocos, Ancelotti fez seu discurso mais emocionante:
— Futebol é simples. Onze homens, uma bola e uma entidade sobrenatural tentando derrubar o Brasil.
Um jogador do Olaria levantou a mão:
— Mister… se faltar zagueiro, eu fiz SENAI.
O Brasil entrou em campo desacreditado. E talvez justamente por isso tenha funcionado. Porque o futebol brasileiro sempre foi assim: quando parece organizado, fracassa. Quando parece um churrasco de condomínio vira épico.
A transmissão mostrava Ancelotti tranquilo à beira do gramado, mãos no bolso, mastigando chiclete industrialmente.
Aos 38 do segundo tempo, o improvável aconteceu: gol do Brasil.
Não de Endrick. Não de Paquetá. Do lateral-direito reserva do Olaria, conhecido apenas como Juninho Pneu.
E naquele instante o país inteiro entendeu que a camisa da Seleção pesa menos do que a irracionalidade.