Gols da Noruega

Vinha escrevendo com certa regularidade no “Crônicas da Copa”, mas uma viagem me impediu de manter o ritmo. Pois bem, volto agora como se estivesse no restaurante assistindo ao vexame brasileiro. Vexame, sim. Não culpo a perda do pênalti e lamento que tenha sido desperdiçado pelo Bruno Guimarães, talvez o nosso melhor jogador no campeonato. Agora, cair na rodinha da Noruega, deixar os caras tocarem de um lado para o outro — feito uma Espanha que não houvesse sofrido a influência secular dos árabes, portanto, não gozasse de jogo de cintura — passou dos limites. Aos dois gols do monstro louro, acrescente esse. Se a cada dia que passa ainda levamos mais um da Alemanha (sete a um, oito a um, nove a um… mil e quinhentos a um), agora conseguimos outra goleada temporal. Três a zero.

Não bastasse o resultado, temos o rapaz considerado craque, um deus, na visão de muitos. Pois ele, nem rio, nem mar, mostrou-se o desagregador que é. Sua cena com o goleiro norueguês é patética. Retrato de seu descompromisso com o time, seu interesse era fazer o gol (talvez provocando o próprio Bruno Guimarães) e não correr atrás de uma impossível virada, de uma reação coletiva. Não me peçam que o aplauda. Aplaudo o Messi, o Mbappé e o nosso carrasco, Haaland.

Como eu disse, ainda estou naquele restaurante onde comi uma excelente tilápia recheada com camarão e catupiry. Estou no momento exato em que o bem da comida foi transformado em indigestão futebolística. Enfim, naquele instante em que o prazer toma uma direta de um Mike Tyson. Tonto, prometo não subir mais ao ringue. Adeus, futebol. Adeus, seleção brasileira.

Mal me recupero, esqueço a promessa de não ver mais jogo algum. Estou me encantando com a França e a Argentina. A primeira me emociona, a segunda me dá raiva, inveja. Ah, sim, os torcedores argentinos continuam com sua coreografia racista, a confederação argentina está sendo investigada, Milei é um palhaço perigoso, mas que raça tem aqueles meninos nem tão meninos assim. Messi é quase um quarentão.

Brasil e Noruega foi o único jogo que acompanhei num restaurante. É uma experiência bem diferente. As pessoas gritam mal nossos jogadores tocam na bola. O zagueiro pegou a bola, o povo grita, até parece que estamos pressionando o adversário em sua pequena área.

De todo modo, quando entraram em campo o moço que foi do Palmeiras — não digo o nome dele porque não o perdoo pela virada que seu time deu no Botafogo em 2024, em pleno Engenhão (sim, sou rancoroso, gente de escorpião, vocês sabem) — e o quase melhor do mundo por dez vezes (nunca eleito), o público foi à loucura. São adorados. O primeiro, ainda uma possiblidade, eu entendo; o outro, de jeito nenhum. O amor ao segundo tem a ver com a aproximação à extrema direita de uma população que tem tudo a perder com essa gente no poder. É a Síndrome de Estocolmo, que não fica na Noruega, mas ali pertinho. Quatro a zero.

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