A Literatura nos ensina e não me deixa mentir: nomes ou sobrenomes de personagens são dados altamente significativos para a decifração da tessitura das histórias. Quem já leu José de Alencar, Machado de Assis e, sobretudo, Guimarães Rosa, entende do riscado. Um dos melhores livros de interpretação de estórias rosianas chama-se O recado do nome, de Ana Maria Machado, profundo mergulho em narrativas como “O recado do morro”, em que os personagens têm nomes ligados aos planetas.
Mas o que isso tem a ver com a Copa do Mundo? Ora, ou ara, como diria Mário de Andrade, é só olhar os quatro finalistas: França, Espanha, Argentina e Inglaterra. Vamos examinar seus nomes ou sobrenomes?
O técnico da possível campeã França chama-se Didier Deschamps. Didier é derivado do latim “desiderius”, que significa desejo. É só olhar o comportamento desse técnico para notar estampado em seus olhos o grande desejo de vitórias. E olha que esse “Didi” no começo faz lembrar do criador da folha-seca no futebol brasileiro, grande campeão de 1958 e 1962. E o sobrenome contém a palavra “champs”, que quer dizer “campo”, em francês, espaço das disputas futebolísticas. E, claro, em inglês já é o começo da palavra Champions…
O técnico da Argentina chama-se Lionel Scaloni. Já está na cara que também tem nome e sobrenome destinado a vitórias. Lionel é xará do grande craque argentino, Lionel Messi, que luta como leão. E o sobrenome Scaloni remete para duas coisas: escalar, e veja como esse técnico sabe escalar muito bem seus jogadores. E ainda está ligado a scala, degrau ou escada. Ou seja, a vitória vem devagar, subindo aos poucos, de degrau a degrau…
O técnico espanhol chama-se Luis de La Fuente. Ora, Luís é nome nobre, vem do germânico, com o significado de guerreiro famoso. E sobrenome indica que sua origem é da fonte, dos grandes mananciais, o que permite que tudo flua a contento.
O técnico da Inglaterra chama-se Thomas Tuchel. Ele é alemão, e o sobrenome dele deriva da palavra “tuch”, que é tecido, pano. Ou seja: destinado a tecer uma grande equipe, e capaz de cercar bem seus adversários (pois outra significação do nome liga-se a cerca.) E o nome Thomas é um soberano aviso aos praticantes do futebol: quem não faz, toma. Não é, Thomas?
Bem, para acabar mal essa crônica investigativa, chamo a atenção para o sobrenome italiano Ancelotti, que deriva do latim “ancelo”, que significa “servo”, “criado”. E como está no diminutivo, sua significação fatal é de pequeno servo. Deixe que a bola role para os poderosos…
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Caio Junqueira Maciel
Caio Junqueira Maciel nasceu em Cruzília, MG. É mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Autor de vários livros de poemas, entre eles, Pele de Jabuticaba, Os sete sábios da Grécia & outros poemas safados e Igrejinha do Rosário (Urutau & Hecatombe). Contista de Cartões de crédito para gastar no inferno (Urutau Hecatombe), Micros-Beagá (Pangeia). Romancista de Um estranho no Minho (editora Viseu). Ensaísta de A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota (Appris), O sangue que rejuvenesce o conde Drácula (Caravana). Participou de várias antologias de poemas e contos, entre as quais Jovens contos eróticos (editora brasiliense); Entrelinhas, Entremontes: versos contemporâneos mineiros (Editora Quixote)Todos os Saramagos (Páginas editora) Letrista musical, tem parceria com Zebeto Corrêa nos CDs Trilhas da Literatura Brasileira, Recados de Minas e Era uma voz: sonetos só pra netos. Em 2022 publicou o livro de crônicas Dia das mãos (editora Urutau) e lançará brevemente, para a coleção BH: a cidade de cada um, o livro Floresta(ed. Conceito).
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