Após inúmeras partidas disputadas e pouco mais de quatro semanas de torneio, chegamos ao fim da fase de grupos e da fase de dezesseis avos, chegando até as oitavas de final desta edição da Copa. A partir de agora são jogos decisivos que valem a continuidade ou término da trajetória de seleções, bem como os sentimentos de seus respectivos povos/nações. Nove das dez seleções africanas participantes do torneio se classificaram em seus respectivos grupos para a fase eliminatória, foram elas: África do Sul, Argélia, Cabo Verde, Congo, Costa do Marfim, Egito, Gana, Marrocos e Senegal. Agora restam Egito e Marrocos nas quartas de final. São todos países que carregam histórias, culturas e geografias importantes de serem entendidas e valorizadas. Ainda mais para nós brasileiros, filhos de uma nação construída por mãos africanas e afro-brasileiras escravizadas.
Lembro-me que passei a compreender mais e melhor sobre dos países africanos a pouco mais de dez anos, e não foi pelo contato com os conteúdos pedagógicos fixados em lei e tornados obrigatório pela Lei 10.639 de 2003 que alterou as Diretrizes e Bases da Educação Nacional para o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas de educação básica do país, bem como nos cursos de graduação para as licenciaturas em história. Mas sim, pelas letras e cantos da estrondosa poesia musical dos blocos afro de Salvador. Com eles, Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê, dentre outros, encontrei parte de minha negritude perdida e passei a respeitar e entender de fato a história dos países africanos.
Dos tambores oriundos da negritude soteropolitana ouvi histórias sobre a libertação das nações africanas do domínio colonial europeu em “Coanza, Congo, Matamba e Angola do Ilê / as batalhas foram travadas / ao querer fundar sua cidade / ver seu povo em liberdade” na música “Havemos de voltar”, e também sobre as belezas de Dakar, capital do Senegal em “Canto para o Senegal”. O povo Ashanti é recordado pelos ideogramas visuais Adinkras e pelo império de Gana de riqueza oriunda da extração do ouro e do cultivo do cacau com influências que alcançavam outras nações da África Ocidental, dentre elas a Costa do Marfim: referências presentes na música “Negrice Cristal (Viva o rei)”.
Por falar em rei, foi nas músicas dos blocos afro que ouvi sobre um idealista, um guerreiro da paz que lutava pela liberdade do povo preto na África do Sul: Nelson Mandela. Junto à isso, organizavam-se “protestos manifestações, faz o Olodum contra o Apartheid” na música “Madagáscar”. Da África do Norte vêm referências do grande e próspero Rio Nilo e toda civilização construída em torno dele, sobretudo pela presença dos egípcios desenvolvendo tecnologias astronômicas, físicas e geográficas, além de apresentar a organização política das dinastias dos faraós, quem nunca escutou o famoso “Eu falei faraó, eeeeee faraó!”, histórias contadas nas canções “Reggae dos Faraós” e “Faraó (divindade do Egito)”.
Enfim, são conteúdos importantes para se compreender as histórias das civilizações, povos, nações e os 54 Estados-nação que compõem o continente africano, muitas vezes reduzido a apenas África, mas não, são diferentes e muitas Áfricas, as quais aprendo ainda hoje com os blocos afro de Salvador e atualmente com informações sobre as dez nações africanas que representaram seu continente na Copa do Mundo. Vida longa às seleções africanas no cenário do futebol internacional! Vida longa aos blocos afro!
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Gustavo Araújo
Apresentador e produtor do podcast “O jogo é hoje” que discute futebol, política e sociedade. Um dos autores da obra literária “Becos & Bicos” que discute a precarização do trabalho e ascensão de profissões plataformizadas. Professor de história e sociologia. Doutorando em Sociologia com pesquisa sobre o fenômeno social das apostas esportivas no Brasil atual.
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