Conto o milagre. O santo, por respeito à privacidade, fica na memória de quem conheceu, famoso por suas tiradas filosóficas na gestão do pequeno clube da cidade do interior. A equipe de futebol, também famosa – ainda que nem sempre por alguns minguados empates e um sem número de derrotas, colecionava bravas contendas no campeonato da 3ª divisão.
E a hora tinha chegado. O adversário cravara o primeiro lugar na tabela e até agora não tinha perdido nenhuma, com zero gol vazado.
O desafio era grande.
Nosso personagem, o diretor do pequeno clube da cidade do interior, adentrou os vestiários com passos firmes, embuído da missão de motivar e incentivar os atletas pra “luta”, tal qual Henrique V antes da batalha de Agincourt, imortalizado pela pena de Shakespeare.
Diziam na época que ele, o diretor, sabia de cor as palavras desse discurso.
E lá foi. Minha ‘bend of bróders’, depois de hoje cada um de vocês será lembrado pela bravura, pela garra, pelo amor à camisa. Não se intimidem diante do adversário, e lembrem-se: dá uma bicuda no canto que o goleiro não tá!
Nessa Copa do Mundo, a cada novo passo da seleção o desafio aumenta. E a nossa angústia também. Contamos com a fé no São Ancelotti na condução da esquadra, que até agora tem feito jus aos seus méritos de grande atleta no Parma, Roma e Milan, e nos mundiais pela seleção italiana em mais de 26 jogos. Fora os 30 títulos como treinador, que o consagram como um dos maiores e mais vitoriosos na história do futebol mundial.
Ainda tem gente que critica a sua evidente falta de emoção durante as partidas. Equilíbrio de quem sabe avaliar cada momento e optar pelas estratégias que se mostrem mais adequadas ao foco, à meta (talvez descarregue as tensões nas mordidas do chiclete).
Dá pra perceber que na volta dos vestiários para o 2º tempo – por mais que os pessimistas de plantão não enxerguem, os jogadores brasileiros retornam com ânimo e espírito renovados, com mais determinação. Isso é mérito de quem comanda, quem dirige, quem orienta. E tem dado resultado.
De novo, vamos entrar em campo contra a garra de um adversário destemido e ávido por sucesso. Mais do que nunca é preciso manter o moral da nossa tropa lá em cima e a confiança na criatividade secular do nosso futebol.
Vai lá Ancelotti. Imprima mais uma vez na cabeça dessa moçada a vontade de lutar, de vencer obstáculos, de conseguir mais essa vitória. E pode lembrar a cada um deles que se a coisa ficar difícil, também vale dar uma bicuda no canto que goleiro não tá.
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Edson Warren Soares
Publicitário, redator e roteirista, contista e escritor bissexto com dois livros editados e uma biografia da MPB saindo da gaveta. Santista doente há mais de setenta anos já teve a glória de presenciar in-loco os arroubos da linha Mengálvio-Coutinho-Pelé e Pepe. Descobriu logo cedo que tinha, a despeito dos dois pés esquerdos, mais habilidade para dribles, lançamentos e petardos através da palavra escrita.
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