DE COMO UMA OLHEIRA PODE RESOLVER O PROBLEMA DA SELEÇÃO

(para Sérgio Fantini; Aluísio Sá; Francisco de Morais Mendes; Gilberto Xavier e Hugo Almeida.)

Olha, nasci em 1952 e foi só no fim dessa década que vi a primeira mulher de calças compridas: foi minha tia Diguinha. E foi no começo da década de 1960 que vi a primeira mulher guiando uma kombi, foi a dona Nísia, mulher do seu Tilu. Hoje é o que se vê, tem até mulher em portaria de prédio residencial, o que o Antônio Prata não acredita: eu também não sabia, mas é só dar uma espiadinha num certo prédio ali perto da Igreja da Boa Viagem, em Belo Horizonte.
Se tem mulher trabalhando em tudo o que é ofício, por que não teria também uma olheira de futebol? Sim, é a Elvira Almeida, contratada por um pequeno clube de Minas, em Nanuque. E ela recentemente descobriu algo impensável: não um menino prodígio de dribles infernais; não um goleiro gato voador: Elvira descobriu, num campeonato de várzea, uma nova estratégia: o técnico Hugo Lins, a um dado momento da partida, solicitava uma pausa. Não essa da hidratação, mas pausa de identificação: os jogadores se identificavam, pois uns não conheciam realmente outros; não apenas diziam nomes, sobrenomes, origem, mas iam até nas mais profundas revelações, o que, psicologicamente, agia como efeito de pleno reconhecimento, explicando porque não estavam atuando bem, que trauma de infância afetava o zagueiro lerdo nas jogadas aéreas e assim por diante.
Elvira Almeida trouxe essa estratégia para seu clube, que agora mudou totalmente de performance.
E como já existe a profissão de olheiro de olheiros, Elvira foi seguida por um certo Alexandre Sóstrato, verdadeiro farol a iluminar as trevas dos miolos de técnicos célebres. Ele já foi até o italiano que treina a Seleção Brasileira. Vocês vão notar, daqui para frente, que a pausa de hidratação será mais longa, pois Casemiro vai se apresentar devidamente ao Rayan; Rafinha vai explicar direitinho quem verdadeiro é além desse apelido infantil para qualquer Danilo que aparecer na sua frente. E, claro, Ancelotti vai contar coisas de sua vida que nenhum atleta sabia.
Então, não se esqueçam: se levantarmos o caneco, vamos agradecer tudo ao trabalho ímpar de Elvira Almeida.

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