Enfim, um tango argentino me vai bem melhor que um pagodinho meia boca tão do gosto de nossos jogadores. Messi, o jovem senhor de trinta e nove anos, não é tão complexo como o bandoneon, mas seu desempenho se assemelha ao toque mágico do Astor Piazzolla, que escreveu, no momento de luto pela morte do pai, “Adios Nonino”, mas, ao La Pulga, poderia ter dedicado o espetacular “Libertango”. O tango libertário ao jogador inqualificável, pequeno milagre da arte de chutar bolas e em certos momentos de não chutá-la, de escondê-la entre os pés.
Assisto aos jogos da Copa em busca do extraordinário. Esse negócio de esquemas, táticas e consciência coletiva não me interessa. Sei que se ganham jogos e campeonatos por conta disso, mas eu quero é o toque sublime, o gol inexplicável, o drible desrespeitoso. Prefiro até o erro do juiz à precisão do VAR ou aos aplicativos que impedem o erro em relação ao impedimento, à bola que pode ou não ter entrado. Enfim, gosto da imprecisão. Deve ser coisa de escritor, às vezes poeta, quase sempre um sujeito pouco afeito às objetividades da vida.
Esse meu desespero não é moda em 26, mas ando mesmo descontente e grito em português, inglês, espanhol, francês, em árabe, suali e iorubá. Grito bem alto: basta dessa lenga-lenga de dizer que ganhar é que é gostoso. Gostoso é jogar bem. Viva o Brasil de 1982. Viva a Holanda de 1974. Viva o Atalaia, time da minha cidade que nunca jogou bem – só dava balões para cima –, mas que tinha alguma coisa de inocente e despretensiosa.
Tudo bem, meu povo, aqui jaz um mequetrefe. Vocês dirão: esse aí nem usa a IA. Quase verdade – quem não vai buscar alguma informação nesses troços? No entanto, ligo o alerta geral: Messi pode ser o último jogador não gerado por uma IA. Eu não quero ver isso, não quero mesmo. Por favor, parem o mundo que eu quero voltar ao útero de minha mãe.