Não sou desses que estão sempre torcendo pelo time mais fraco. Gosto de futebol bem jogado, seja por quem for, quer dizer, desde que o Botafogo, ora grande, ora pequeno, não esteja em campo. Nesse caso, jogando feio ou não, é por ele que torço, é para ele que olho. Se ganha, mérito do time; se perde, responsabilidade do time. Os outros são detalhe.
Na Copa tudo fica nublado. Não é só o futebol que está em campo, é o mundo e sua complexidade. Difícil torcer pelos EUA comandado por uma direita rabugenta e mal-intencionada. Difícil torcer pela Argentina cujo presidente, em permanente delírio, lambe as botas do americano. No caso de nossos vizinhos, é difícil torcer contra também, não só porque gosto do estilo dos hermanos, mas a ordem no meu coração é a seguinte: Brasil, América do Sul e África.
Com essa perspectiva, ver a lavada de zero a zero que Cabo Verde deu na Espanha – time que me agrada – é maravilhoso. É quase uma vingança por todas as atrocidades cometidas na construção desse mundo atual. Ah, Cabo Verde, seus quinhentos mil habitantes, defendidos por Vozinha – apelido de um Josimar, que, por sua vez, foi uma homenagem ao lateral do Botafogo e jogador da seleção brasileira de 1986 –, devem comemorar o feito com muita festa. Música bonita vocês têm, sua Diva dos Pés Descalços é uma daquelas vozes que nos tira do tempo, que nos leva e traz do presente ao passado, do passado ao futuro. Ah, Cabo Verde, dance e cante no delicioso crioulo cabo-verdiano, somos todos ouvidos e pés.
Se Cabo Verde ligou minha empatia aos fracos e oprimidos, o mesmo não aconteceu no jogo do Uruguai contra Arábia Saudita. Gosto muito do país do nosso extremo sul, gosto da pegada de seus jogadores – às vezes exagerada, violenta mesmo – e não guardo mágoa de 1950, do Maracanazo. O Uruguai não é um país poderoso, seu PIB o coloca em octogésimo segundo na escala mundial, enquanto a Arábia Saudita está em décimo nono. Mas em termos de futebol, o bicampeão mundial sobra, é o forte no embate entre as seleções. E eu torci pela Celeste, que só acordou para o jogo no segundo tempo. Empatou e escapou de um fiasco. Vejam bem, nesse jogo, empatar é fugir do fiasco. No de Cabo Verde, empatar foi dar uma tremenda surra na La Roja.
No caso do jogo do Brasil, o empate foi fiasco. Para Marrocos, que sobrou em campo, comandado de certa forma por um moleque de dezoito anos, Ayyoub Bouaddi. Que espetáculo deu aquele menino. Marrocos ficou em quarto lugar na Copa passada, espero que vá mais longe, quem sabe se reencontrando com o Brasil, se esse tomar juízo e armar um time correto formado por jogadores fora da excepcionalidade de outros tempos. Um amigo meu, o poeta Igor Calazans, comentou que os jogadores atuais nos dão saudades não de Pelé, Garrincha, Zico ou Sócrates, eles nos fazem chorar pela ausência de Valdo e Dunga.