Não consigo ignorar uma Copa do Mundo

De quatro em quatro anos meus aniversários são em clima de Copa do Mundo, junho é o mês do futebol. Esse ano não foi diferente, não pude escapar, ainda mais com o jogo da seleção brasileira dia 13 de junho – dia de Santo Antônio, Fernando Pessoa, Rita Cadillac e meu. Se em alguns anos, em momentos mais reflexivos, bucólicos ou de pouca grana ignoro a efeméride e no máximo saio pra jantar com minha companheira, em ano de copa é difícil, quase impossível se afastar desse clichê.

Me lembro dos melhores aniversários com grandes jogos, não me lembro de Costa Rica 2 X 5 Brasil em 2002, era muito pequeno e meu aniversário, em família sem tradição de festança, deve ter sido um bolinho para a criançada da rua, um churrasquinho entre tios e tias e umas boas caixas de cerveja Antártica de garrafa. Da copa do Japão lembro de pouca coisa, os horários dos jogos não se encaixavam com minha rotina de criança, eram de madrugada e na semana. Dessa copa, nossa última alegria como futebolistas, só me lembro de comemorar soltando morteiros com o braço esquerdo quebrado. Talvez um resquício do inferno astral.
Em 2006, a seleção prometia entregar o hexa, com um time ainda mais forte, cheio de estrelas, era barbada ganhar a copa, teria vivido 3 títulos de Copa do Mundo com 14 anos recém completados. Me lembro de cantar parabéns na frente de um bolinho tímido na terça-feira, só com o pessoal de casa para acompanhar a magra vitória do Brasil contra a Croácia por 1×0. O final da copa a gente sabe, foi um passeio de Zidane que se consolidou como um dos meus ídolos futebolísticos da adolescência e um sentimento de frustração e desconfiança pela seleção que dura até hoje.

Em 2010, o time não empolgava, era um futebol medíocre e já não éramos mais o país do futebol, não me lembro de muitos jogos dessa copa, lembro do futebol da Alemanha que parecia estar renovando seu time e jogando o fino da bola, prenunciando o que viria na copa seguinte. O Brasil foi eliminado pela Holanda de virada e nessa fase eu já tinha mais birra da seleção do que admiração. O técnico Dunga era uma figura detestável nas entrevistas e os atletas se comportavam mais como popstars do que como jogadores.

Em 2014, meu aniversário foi de casa aberta, família, amigos, pagode, um churrasco, um bolo de fruta e de apresentação da minha namorada, e atual companheira pra família. Copa no Brasil, país do futuro, as coisas estavam caminhando, essa copa era nossa, tinha até boatos de que a Copa estava comprada, imaginem só. E foi uma Copa muito bem vivida, vimos os jogos sempre com familiares e amigos, muitas festas, mesmo no começo, eu sendo contra a Copa, até aderi ao movimento “Não vai ter Copa”, fruto das ruas de 2013, eu abriria mão dessa Copa por mais investimento em políticas públicas. Mas na hora que rola a bola, o futebol contamina e voltamos por um mês à infância. Lembro que no dia da festa a Costa Rica venceu o Uruguai por 3×1 e fez nossa alegria escorrer junto com o óleo de asinha de frango. Na eliminação brasileira com o sonoro 7×1 estava deitado no sofá de casa com ressaca.

Em 2018, estava em meu momento menos tolerante às falcatruas da FIFA e da política, foi o auge do meu anarquismo juvenil, o futebol não cabia muito nas minhas leituras políticas, a não ser para fazer críticas ao capitalismo e ao neoliberalismo, nem me lembro de ter feito festa esse ano. E a Copa só começou dia 14 de junho.

Uma outra efeméride atravessou o mundo em 2022, a covid-19 e adiou a Copa para o final do ano. Também não queria essa Copa, seria uma imprudência um torneio de futebol ainda com o vírus rondando por aí. Não me lembro de ter feito nada nesse ano, um bolinho em casa com minha companheira e minha cachorrinha deve ter acontecido, sem futebol, sem Copa, sem aniversário.

Eis que chegamos em 2026, estreia do Brasil, sem escapatória, minha companheira organizou um bolinho com festinha e telão pra ver o jogo, a família viria de qualquer jeito, não teria pra onde correr, todos os bares, restaurantes e ruas estariam ligados no jogo e foi assim que trouxemos isso pra casa, pro tema da festa. E foi uma estreia meio murcha, cheia de defeitos no futebol, quando o jogo acabou o parabéns foi cantado e encerramos o evento. Não foi um dia inesquecível, teve seus momentos de brilho, com amigos e familiares e bebidinhas e comidinhas, foi uma festa melhor do que a atual seleção brasileira.

Espero ainda mais memórias dessa Copa que ainda não engrenou no meu imaginário e quem sabe espero um time tão bom quanto aqueles que existiram em outros 13 de junho muito antes do meu nascimento.

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