A Invasão Viking

Caro leitor,
Das brenhas do oceano, através das neblinas, eles vieram — para tomar nossas praias intocadas de areias brancas e águas mansas. Vi a cabeça de dragão fincada na proa, fendendo a bruma; e julguei ouvir o rufar surdo que sincronizava os remos, a toada gélida de um povo do gelo. Mas esta terra, caro leitor, tinha o seu próprio ritmo — a cadência sincopada e frenética do samba de um povo que ri quando devia chorar.
Não vieram sozinhos: trouxeram duas montanhas, um urso que traz Thor no próprio nome e um Lobo de nome Fenrir, aquele que há de devorar o sol. No centro do jogo, o maestro do Arsenal — que amarra os fios do destino nórdico entre os pés. E, finalmente, à frente de todos avançava o gigante, o jötun de cabelos longos da cor do sol com o número nove nas costas, que fazia tremer as defesas de toda a Europa. Outrora, caro leitor, eu diria com orgulho, para fechar a introdução: “faltou avisar-lhes que nestes trópicos os deuses jogam de pés descalços”. Hoje, a frase me morre nos lábios.
Pois fomos nós que esquecemos como se joga descalço. O Brasil entrou em campo vestido de europeu — cauteloso, quadrado, com medo da própria sombra —, enquanto a Noruega, os bárbaros do Norte, ousava jogar à brasileira: com a bola nos pés, com a alegria de quem não tem nada a perder. O ladrão, caro leitor, roubou-nos a alma antes mesmo do apito, e com ela saiu jogando.
O primeiro sobressalto veio logo aos dois minutos, como um trovão em céu ainda limpo: a rede balançou do lado norueguês, o maestro lançou, e o Norte comemorou o que seria um gol relâmpago. Salvou-nos, dessa vez, a bandeira do impedimento — mas o aviso ficou no ar, gélido: aqueles homens não vieram a passeio.
E no minuto treze, este país se perde novamente. Um pênalti — a mão do destino nos oferecia a redenção de bandeja. Mas o suposto protagonista, o preferido dos jornalistas, não chamou a responsabilidade; recuou, como quem teme o peso da própria lenda. Coube a Bruno Guimarães, por decisão da corte, a missão que não era sua — e o goleiro Nyland defendeu. Perdemos o pênalti, sim, mas antes disso havíamos perdido algo pior: a coragem de assumir o protagonismo.
E assim se arrastou a batalha, caro leitor, escudo contra escudo. De um lado, a parede do Norte — o velho skjaldborg dos homens do gelo, ferro e carvalho, disciplina e paciência. Do outro, um Brasil que já não sabia furá-la à sua maneira, com a ginga e o drible, e teimava em bater de frente, aço contra aço, no jogo que era deles. Os primeiros quarenta e cinco minutos morreram sem gols, mas não sem presságio: quem empurra a muralha alheia com as próprias mãos, cedo ou tarde, é esmagado por ela.
Houve um lampejo, é justo dizer. Aos catorze do segundo tempo, Vinícius Júnior — o queridinho da imprensa — teve, enfim, o seu lampejo de craque: rasgou a defesa e serviu o menino Endrick na cara do gol. Mas a promessa acabara de entrar, ainda com os pés frios, e mandou para fora. É um costume sádico do nosso mister, caro leitor: pôr os meninos gelados no fogo da batalha e esperar deles o calor que ele mesmo não lhes deu.
Aos vinte e dois, a corte enfim se lembrou do príncipe. Entrou o malabarista dos sonhos, o último herdeiro de Pelé — não nos acréscimos, note bem, mas ainda com tempo de sobra. Só que o tempo, ali, já não bastava: pois de nada serve devolver a alma a um corpo que a corte já havia esvaziado. O time que o recebeu estava apático, desfigurado, sem memória de si mesmo — um Brasil que envergava a camisa amarela sem saber mais o que ela significa.
E foi sobre esse cadáver ainda de pé que a profecia se cumpriu. Aos trinta e quatro da etapa final, o gigante subiu mais alto que Gabriel e, de cabeça, abriu o placar — o jötun que anunciamos na proa dos navios. E aos quarenta e quatro, a nossa defesa, reverente, abriu-lhe passagem para que chutasse à vontade: o segundo gol, a sentença assinada pelo mesmo carrasco louro. Dois golpes do martelo de Thor, e a parede de escudos do Norte permaneceu de pé, intacta, invencível.
O príncipe, em campo, assistiu ao desastre que não lhe cabia mais evitar sozinho. Mas se não pôde salvar o time, salvou ao menos a própria honra — e a nossa. Nos acréscimos, um pênalti; e desta vez não houve quem recuasse. O príncipe da Vila tomou a bola para si. O goleiro-herói, aquele que crescera na primeira penalidade, tentou entrar-lhe na mente com poses e gestos — mas foi o príncipe quem entrou na dele, desmontou-lhe a máscara de herói com a paradinha, e fez. O único gol de um Brasil que já não existia.
Perdemos, caro leitor, como se esperava. Perdemos porque, muito antes de perder a partida, perdemos a identidade. E o bobo da corte — o mister italiano que quis fazer de um qualquer justamente aquele que carrega esta seleção nas costas há quatro Copas — saiu de campo como um europeu qualquer: sem coragem sequer de encarar a imprensa na zona mista, no calor da dor, mandando o próprio filho justificar o injustificável, e só aparecendo diante dos jornalistas quando já era seguro falar. O bufão fugiu do palco antes de o pano cair.
E enquanto o bufão fugia, o príncipe chorava. Foi o único a derramar lágrimas verdadeiras naquele gramado — o gênio das quatro Copas, ao lado apenas de Pelé; o maior artilheiro da história desta seleção; o homem que treinou até três vezes ao dia, na preparação inteira, só para chegar apto — e a quem a corte concedeu, em todo o Mundial, míseros cinquenta e cinco minutos. Cinquenta e cinco minutos para o último dos nossos gênios. E ainda assim, nesses minutos roubados, não teve medo de cobrar o pênalti que ninguém quis.
Que fique, então, a lição que este país insiste em não aprender: o Brasil precisa voltar a ser Brasil. Que nenhum italiano, por mais taças que tenha erguido na velha Europa, jamais entenderá o que se passa nos pés tortos e na alma sincopada deste povo. Trocamos o drible pela planilha, o gênio pelo banco, a arte pela covardia — e fomos, com toda a justiça, devorados pelos lobos que ousaram ser mais brasileiros que nós.
O pano se fecha sobre a corte. E, desta vez, caro leitor, não há sequer um nariz vermelho para nos fazer rir.

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