Bruno Guimarães converte um pênalti no início do primeiro tempo. Os noruegueses ficam desarvorados, perdem ritmo de jogo e vão para o intervalo botando os bofes para fora.
Na volta, o Brasil segue se impondo. Vini Jr. faz um lançamento preciso para Endrick, que, ganha do zagueiro na corrida e com um toque sutil desvia a bola do goleiro. Brasil 2 a zero.
Os remadores se mandam organizados em massa para o ataque e seu goleador colossal e competente consegue em dois lances empatar o jogo. 2 a 2.
Aos trancos e barrancos, o Brasil arma um contra ataque, o zagueiro deles se apavora, atrasa a bola num lançamento alto para o próprio goleiro, que chega a tocar na bola, mas a danada entra caprichosamente na gaveta. Brasil 3 a 2.
No finalzinho, uma falta desqualificada de um norueguês gera cartão vermelho e um pênalti. E Neymar decreta o fim da partida. Brasil 4 a 2 e o Brasil segue para enfrentar a Inglaterra.
Bem, este foi o roteiro criado para Brasil e Noruega. Escrevi a sinopse, botei debaixo do braço e apresentei ao comitê dos deuses do futebol. Que não aprovaram.
Rasgaram meu papel, jogaram no lixo e exerceram o poder de decidir as coisas.
Lembro da minha vida de publicitário. Tantas e tantas ideias são recusadas e lidar com frustrações, digerir rejeições e perceber que não adianta chorar por roteiros derramados, foram os grandes aprendizados de décadas e décadas de redator e diretor de criação em agências de propaganda.
Não discuto justiça ou injustiça nos vereditos dos deuses do futebol.
Mas desconfio que tiveram razão. No meu roteiro, a eficiência adversária não foi contemplada. Foi aprovada nos altares do futebol a ideia do melhor time, mais focado, mais senhor de si, mais eficiente, mais decidido.
Vou dar um tempo para idealizar jogos do Brasil. Tenho que considerar a evidência de que não temos mais craques decisivos. Que os tempos dourados passaram. Que a camisa amarela há tempos deixou de ser um manto respeitável de talento.
Eu que administre minha frustração. Sem tristeza acachapante, sem apontar dedos para culpados. Isso tem muita gente fazendo com veias saltadas, tempestades de perdigotos, babas amargas.
Quem saiu da Copa foi o Brasil. Eu não. Ótimos jogos virão. Os deuses do futebol tudo sabem.
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José Guilherme Vereza
José Guilherme Vereza é publicitário, redator, diretor de criação, escritor, ficcionista, cronista, roteirista. Pós graduado em Pedagogia, acrescentou o “professor” nessa lista de coisas que gosta de fazer. E não para por aí. É pai de quatro (objetiva e subjetivamente), avô de dois, metido a cozinheiro, botafoguense típico, ama escrever. Ter sido convocado para o timaço do Crônicas da Copa é seu imodesto gol de placa.
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