A fisgada

Sou a panturrilha do Neymar.

Antes de mais nada, gostaria de esclarecer uma coisa: eu não pedi fama.

Nasci para ser apenas uma panturrilha. Uma panturrilha honesta. Trabalhadora. Daquelas que empurram o corpo para frente sem exigir entrevistas coletivas. Mas o destino, que é um empresário inescrupuloso, tinha outros planos.

Hoje sou mais comentada que muito ministro. Abro os jornais e lá estou eu. Ligo a televisão e lá estou eu.

Entro nas redes sociais e encontro milhares de especialistas discutindo minha vida pessoal.

Uns dizem que estou pronta. Outros afirmam que não estou. Tem quem analise minha textura em câmera lenta. Há quem amplie minhas fibras em 800%.

Outro dia um sujeito desenhou setas vermelhas sobre uma foto minha e concluiu que eu estava “evoluindo bem”. Nem eu sabia.

Confesso que estou cansada. Não de correr. De palpites.

Mal dou uma fisgada e imediatamente surge uma mesa-redonda com oito comentaristas, três ex-jogadores, dois fisioterapeutas e um filósofo.

Recentemente disseram que eu poderia estrear contra o Haiti.

Achei estranho. Até onde sei, panturrilhas não estreiam. Quem estreia são os jogadores. Panturrilhas apenas acompanham.

Mas compreendi a lógica. Neste momento, para uma parte da torcida, eu já sou mais importante que o resto do corpo.

Às vezes até imagino a cena. O locutor anuncia:

“Entrou panturrilha!”

O estádio explode. A câmera me procura. Os patrocinadores sorriem. E Neymar vem atrás de mim carregando chuteiras, garrafa d’água e a própria reputação.

É uma responsabilidade enorme.

Por isso, peço calma. Sou apenas uma panturrilha. Embora, pelo noticiário recente, eu suspeite já estar disputando a Bola de Ouro.

Compartilhar:

Curta nossa página no Facebook e acompanhe as crônicas mais recentes.