Caro leitor,
Este autor não poderia silenciar diante do espetáculo de Houston — pois o Brasil, caro leitor, sofreu como sofre todo grande amor: traído por um passe, ferido no primeiro ato, e redimido apenas no último minuto, quando o coração já não cabia no peito.
E foi um passe — apenas um — que rasgou a ferida. Aos vinte e oito minutos, a camisa de número 13 do Danilo entregou a bola ao adversário como quem entrega, distraído, a chave de casa ao ladrão. Kaishu Sano não pediu licença: avançou, armou o pé e fuzilou rasteiro, de fora da área, varando a nossa defesa e a alma de uma nação inteira. E Alisson — guardião em quem depositamos uma fé ainda trêmula, pois sua bandeira jamais foi hasteada nem perto das alturas alcançadas pelo lendário Taffarel — atirou-se tarde, ou cedo demais, e viu o couro morrer no fundo das redes, impotente, condenado a recolher da rede a bola e, com ela, a culpa. O estádio emudeceu. E o Brasil — que dominava a posse e desperdiçava chances como quem joga pérolas ao chão — viu-se subitamente nu, em desvantagem, sangrando no primeiro ato de sua própria tragédia.
Mas nem só de tragédias vive esta peça. E eis que a redenção veio do lugar mais improvável. Casemiro — que até ali fora o pior dos onze, lento, atrasado, perdido no meio-campo como quem esquece o próprio nome — ergueu-se, num piscar de olhos, da lama ao altar. Aos dez do segundo tempo, subiu mais alto que todos e, de cabeça, restaurou o equilíbrio do mundo. Mas reparai, caro leitor, na crueldade da ironia: até a nossa salvação veio vestida à europeia. Empatamos de cabeça, com a frieza geométrica de um zagueiro alemão — não com a malandragem, não com o drible, não com aquele lampejo de gênio que só brota nos pés tortos deste país.
Houve faíscas, porém — e é justo registrá-las. Dois minutos depois, aos doze da etapa final, Vinícius Júnior recebeu a bola em velocidade e, num átimo, vestiu a alma que andávamos a chorar: aplicou uma caneta, uma meia-lua desmoralizante, no zagueiro japonês, que ali ficou, cravado ao gramado, a perguntar-se onde teriam ido parar a bola e a própria dignidade. Invadiu a área pela esquerda, armou e fuzilou — e somente a trave, essa carrasca de mármore, negou-nos o gol. Por um segundo, caro leitor, foi como se o fantasma do príncipe da Vila houvesse baixado naqueles pés; como se o nosso Cristiano Ronaldo, sem querer, tivesse lembrado que nasceu brasileiro.
A segunda faísca, essa, encontrou as redes. Nos acréscimos, com o relógio já fazendo as vezes de carrasco, o número 22, Gabriel Martinelli — herói tão improvável quanto necessário —, protagonizou a outra jogada da tarde que se poderia jurar, de olhos fechados, ter nascido em terra brasileira. Foi o nosso segundo instante de futebol; e por ele o coração, enfim, transbordou. Mas que o leitor não se engane com a euforia: duas andorinhas não fazem verão, e dois lampejos não devolvem a alma a um time que a deixou no vestiário.
Vencemos, é verdade. Mas toda vitória cobra o seu preço, e o desta tarde foi o mais alto de todos: ontem vimos o Brasil jogar como o Real Madrid, e cabe a este autor perguntar — será isto o que desejamos? Pagamos com a moeda da nossa identidade. Quem somos nós?
Pois morre o futebol brasileiro no instante em que o último gênio da bola é tratado como um qualquer. O palco sagrado sangra ao ver o último dos moicanos aquecer por toda a segunda etapa sem jamais incendiar, à beira do gramado, sem nunca pisar no picadeiro. O senhor Ancelotti venceu a partida — concedo —, mas a um custo que beira o sacrilégio: a derrota da arte, a pátria de chuteiras desertando da própria alma para vestir-se de europeia.
É fato, e não o nego, que temos o nosso Cristiano Ronaldo nos pés de Vinícius Júnior — todo vigor, todo arranco, toda velocidade. Mas perdemos o nosso Messi. Houve quem ousasse sonhar que o surfista Cunha herdaria a camisa nove do Ronaldo Fenômeno. Mas pode mesmo, caro leitor? Eu vi o Fenômeno, aos dezessete anos, irromper nos gramados do Cruzeiro como quem rouba o próprio futuro; vi-o dar entrevista cabisbaixo, acanhado, e dali partir rumo à lenda. Vi Romário, em seu retorno triunfal à canarinha, carregar o Brasil nas costas diante do Uruguai. Ouvi a voz de Galvão Bueno rasgar-se em júbilo ao narrar o primeiro gol do artista Ronaldinho Gaúcho, que, na primeira bola que tocou, deu um chapéu, depois um meio-chapéu, e estufou as redes como quem assina uma obra de arte antes mesmo de ser apresentado ao mundo. E vi Neymar, o príncipe da Vila, pintar na tela das quatro linhas alguns dos gols mais belos que olhos humanos tiveram a graça de testemunhar.
Agora que a temporada avança, eu pergunto ao europeu que se diz brasileiro, que canta o nosso hino de mão no peito: sabe ele que o príncipe da Vila não é um qualquer? Pergunto, encarando-o nos olhos, se sabe que este país — a pátria de chuteiras — tem uma identidade a defender. E pergunto, caro leitor, não apenas ao nosso mister, mas a toda a corte: vale mais ter um Cristiano Ronaldo em nosso escrete, ou ter, no mesmo time, um Messi e um Cristiano Ronaldo lado a lado?
Ancelotti: Neymar não é um qualquer. E se ainda assim insistes em vê-lo assim, então a falta não é dele…
Pois o nariz vermelho, descobrimos enfim, não pertence ao herói da função. Pertence ao bobo da corte.
E é aqui que este autor se despede — mas só até o pano subir de novo. Voltarei no próximo ato da temporada, quando o Brasil enfrentar ou a remada viking da Noruega, ou o barrito dos elefantes da Costa do Marfim. Até lá, caro leitor, guardai o coração: ele ainda há de ser exigido.
Romero Pio · 30/06/2026
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Romero Pio
Romero Pio é recifense, servidor do Tribunal de Justiça de Pernambuco, escritor e poeta premiado em concursos nacionais — entre eles o 4º Prêmio da Academia de Letras de Penedo, o concurso de Brumadinho/MG (2024) e o VII Concurso Literário Cidade de Ouro Branco. Atualmente finaliza seu primeiro romance. Escreve sobre rock, arte, filosofia e futebol no perfil @rockpages e divulga sua poesia no @sonsderimaseventos.
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