Torcendo com os dentes

Marquei a dentista justamente na hora do jogo entre Alemanha e Japão. Paciência. Depois eu assisto aos melhores momentos. Quando chego na doutora, os olhos puxadinhos dela sorrindo por trás da máscara, só aí é que me dou conta: Caramba, hoje é dia feriado pra ela!

Procurei bandeirolas como lanternas vermelhas pelo consultório, não vi. Mas a televisão tela plana de 30” em LED bem acima do refletor odontológico, ligadíssima no jogo confirma: ela vai torcer e trocar a minha obturação ao mesmo tempo.

Você torce pro Japão?, pergunto distraído, enquanto ela me põe um babador de papel com uma correntinha metálica que me gela a nuca. Claro! Todos os meus antepassados estão em campo hoje. No Japão, tudo é uma dinastia!, ela diz, seus olhos brilham. Constrangido, penso em perguntar se ela preferiria remarcar a consulta, mas o buraco no dente me silencia. Quando ela prepara aquela agulha imensa pra furar a minha gengiva, eu, já com a coluna gelada, gol da Alemanha. Fu-dew, penso, em japonês.

Enfurecida, ela vem pro meu lado sem muitos amigos. Parecia um Giraya com sua espada entre os olhos, e eu começo a rezar pro Nacional Kid, meu primeiro super-herói. Rapidamente ele me atende, nem precisei apelar pra santo Expedito: a anestesia pega tão bem que sinto meus lábios já na testa.

Pela fresta dos dedos e por entre a mecha do cabelo dela eu vejo a Alemanha futricando a defesa japonesa com o mesmo motorzinho que já nos deixou banguelas no Mineirão. Mas o Japão, eu não sabia, tem tipo um Naruto no gol. O goleiro mais ninja da Copa, Gonda, Shuichi Gonda para os íntimos, vai fazendo diversas improváveis defesa seguidas, pegando tudo com seu raio Rasenshuriken, que sai da luva e segura todas as flechas alemãs.

Quando a Alemanha faz o segundo gol, eu digo a ela, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar: o á-ai-a-u-á! — O quê?, ela me pergunta, bravíssima. Eu cuspo na piazinha que tem ao lado da cadeira e lhe digo: O VAR vai anular! o alemão estava um chucrute à frente.

Batata. Gol anulado. Ela então fica feliz comigo e toma aquilo como um bom sinal. Você entende de futebol? Respondo que faz quase sessenta anos que acompanho, que alguma coisa devo ter aprendido. O quê, por exemplo?, ela me desafia. Ora, a lei máxima do esporte bretão, garanto-lhe. Qual, ela quer saber: Quem não faz, leva. O Japão vai virar.

Ela acha que estou apenas querendo ser gentil. E o goleirinho de amarelo feito um Pikachu do mal, continua feito um azougue, colocando água fria no chope quente dos alemães. Gol. Do Japão? Não te disse! Ah, que maravilha, ela diz, encantada com o replay, e eu pensando no meu dente. Morde, diz ela.

Sim. O Japão tá mordendo, digo. E ela, Não, morde você! pra eu ver se ficou alta a obturação! — Estou passando a língua no carbono, quando, de repente os tekamakis metem o gol da virada nos repolhos. Ela joga o esguicho pro alto e me abraça, gostei dessa parte. O dente já estava perfeitamente consertado. Como ela fez isso?, penso. Ah, ela também é ninja! concluí.

— Zélia, marca a próxima consulta do Marcílio, por favor?

— Que dia, doutora?

— Ah, vê aí um dia que caia no próximo jogo do Japão!

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