Estou vivo

Em 2018, na Copa da Rússia, eu, Matogrosso e o Joca fomos convidados pelo Gagarin, dono do Sem Nome Boteco, para organizar as festas nos dias dos jogos do Brasil. Foi um sucesso. Reunimos centenas de torcedores para tomar cerveja, falar da vida e torcer pra seleção pelo telão. Na Copa do Qatar, em 2022, o Gagarin chamou a gente de novo. Mas o Joca adoeceu – doença degenerativa – e nós, em solidariedade, recusamos o convite. “Não havia clima”, justificou Matogrosso.
A gente ficou se falando pelo Zap e fazendo visitas periódicas ao nosso amigo, a fim de levantar o moral dele porque, entre outras coisas, teve de cortar cerveja e fazer fisioterapia. E ele ficou sensível, se emociona com qualquer beijo de novela, como diz Zeca Baleiro. Está conversando numa boa e, do nada, começa a chorar. De cortar o coração.
Mas, outro dia, o Joca escreveu no Zap: “Estou bem e lidando melhor com a enfermidade”. Entusiasmado, Gagarin sugeriu: “Topam fazer as festas pra Copa dos EUA, Canadá e México’’? Topamos, claro. O Joca adorou a ideia e Matogrosso ficou animadíssimo: “bora pra Copa 2026, tudo vai ser como antes”.
Na verdade, eu lhe disse, nada será como antes. Pra começar, não podemos tomar cerveja. Questão de respeito. “Imagine a gente tomando cerveja e o Joca só na água com limão!”. E não pode falar da Ponte Preta, que ele começa a chorar. “E nem do Guarani porque aí quem vai chorar sou eu”, emendou o Matogrosso. E nem do Neymar porque aí seria a minha vez de cair no choro.
“É mais fácil perguntar o que pode”, resmungou. Tem mais uma coisa, eu emendei: podemos falar de gripe, dor nas pernas, dor na lombar, pressão alta. Isso tudo está liberado, mas de doenças degenerativas, nem pensar.
De repente, pareceu que os encontros seriam um fracasso, mas tentei animar o Matogrosso. Por um mês, vamos falar só da seleção e esquecer doenças, cerveja, beijo de novela, a droga do Guarani na Série C, a droga da Ponte caindo pelas tabelas na Série B. Copa acontece a cada quatro anos e quem garante que vamos estar vivos na próxima?
Ele me olhou de um jeito estranho, sem disfarçar o riso. “Pra falar da seleção vai ter de mencionar o Neymar”. Não tinha pensando nisso. O Matogrosso e o Joca diziam que eu tinha má vontade com o jogador. Até tive empatia no começo, mas minha paciência se esgotou. Ele nunca fez falta à seleção, menos agora que está entediado. Parece que se lambuzou de mel e perdeu o encanto pelo futebol.
Mas meus amigos também tinham pedra no sapato: viviam de passado e reclamando que não conhecem nenhum jogador da seleção. “São uns estranhos pra mim”, disse Joca. “Não sabem nem cantar o hino nacional”, emendou Matogrosso.
Então, dia desses, o Gagarin me contou que o Joca e o Matogrosso andaram se encontrando no Sem Nome Boteco. Estavam preocupados com a organização das festas, mas, também, com a indisposição deles para com a seleção. Parecia uma sessão de terapia sem o terapeuta, brincou Gagarin, que escutou umas frases.
“Tenho consciência de que sou saudosista, vivo com a cabeça no passado”. O questionamento veio do Joca. “De fato, não conheço os rapazes da seleção, mas de que vale lamentar que não existem mais jogadores como Pelé, Garrincha, Rivelino, Sócrates, Ronaldo? De nada”.
Matogrosso meio que assustou com a conversa, embarcou na vibe do Joca, mas fez uma observação: “não vale de nada, certo, mas que é estranho é. Mostra um rosto na TV, mostra outro e eu não sei quem são. E por que não aprendem a cantar o hino nacional? Lembra que o Messi não cantava? Até o Messi cantou e a Argentina foi campeã”.
– Mas e daí que não cantam? Eu acho, Matogrosso, que a gente usa esse lance de não conhecer os caras e porque não cantam o hino como desculpa para reclamar da vida, como se no nosso tempo, a vida fosse melhor.
– Melhor era mesmo.
– Nada! Nós éramos jovens, só isso. Tudo é lindo na juventude. Hoje eu reclamo porque estou doente, mas reclamava também quando não estava.
E, de repente, Joca ficou bem sério.
– Sabe de uma coisa: eu andava tão pra baixo que decidi colocar minha vidinha pra fora de casa, tranquei a porta da sala a sete chaves e pus gradis nas janelas. É simbólico, você entende, né, Matogrosso? De vez em quando, minha vidinha jogava fachos de luzes coloridas entre os gradis da janela e mandava recadinhos pelo Zap, sugerindo pra eu olhar o sol, contemplar o céu, jogar fora os pensamentos sombrios e dava dicas de música e literatura; me disse pra não esquecer do Guimarães Rosa e do Machado de Assis, mas, também, ler contemporâneos, como Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves e Torto Arado, de Itamar Vieira Junior”.
– Do que você está falando, Joca?
– Certo dia, cansado de morrer aos poucos, reabri a porta, escancarei as janelas e comprei os dois livros recomendados. Tanto rebuliço poderia ter mudado alguma coisa em mim, no meu corpo. Não. Estava tudo igual. E estava tudo diferente.
– Que bacana, Joca.
– Foi como se uma luz me iluminasse e eu senti enorme prazer em estar vivo, mesmo em meio a tantos perrengues.
– Eu entendo você. A vida é difícil pra todo mundo – pra uns mais, pra outros menos.
– E sabe o que eu fiz, Matogrosso? Procurei uma música que retratasse esse instante e encontrei Nine out of Ten. E, enquanto dançava, cantei junto com Caetano: Estou vivo muito vivo/ sinto o som da música batendo na minha barriga/ sei que um dia vou morrer/ mas estou vivo/ e sei que um dia vou morrer/ mas estou vivo.
Ontem, nós três nos encontramos para tratar das festas. Nunca vi o Joca tão animado. “Quando é, mesmo, o primeiro jogo”? E o Matogrosso: “Comprei álbum de figurinhas para me familiarizar com os novos jogadores”.
Só eu estava um pouco chateado. Aguentar o Neymar e seus milhões de seguidores não vai nem um pouco agradável. Mas é Copa. Outra, só daqui a quatro anos. E quem sabe se a gente vai estar aqui pra ver?

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