A Copa do Mundo de 2026 ainda não começou, mas um título já está garantido: a maior Copa de Todos os Tempos – pelo menos durante um certo tempo, que pode ser médio, imediato ou longo. Até lá, até ser superada, será glorificada com todos os superlativos possíveis.
Já tivemos Copa em dois países diferentes. Foi meio estranho, mas foi aceito de bom grado, em nome, do business e tudo o mais que gira em torno do negócio futebol. Num mundo onde tudo tem preço, devemos considerar que acordar de madrugada para assistir futebol seja o menos problemático… Afinal, já tivemos Copa até no deserto. Pois interessa é a massa consumidora, o público que vê o futebol antes de tudo como acontecimento midiático, pouco importando o esporte em si.
O futuro nos reservava que o próximo recorde seria alcançado com requintes inusitados: a Copa de 2026 seria disputada em três países diferentes e teria a participação recorde de 48 seleções. Que critérios foram utilizados, desconheço. Provavelmente, além da monetarização, devem ter levado em conta a presença de todos os continentes no evento, – tornando real o sonho do antigo dirigente, João Havelange, que imaginava o futebol como uma imensa rede aproximando e envolvendo o planeta inteiro.
Entretanto, a grandiosidade representada pelos números e os superlativos escondem alguns paradoxos: o aumento, a participação recorde pode sugerir que a grande festa do futebol se massificou ao extremo, mas por outro lado os preços estratosféricos dos ingressos e do custo dos serviços correlatos – transporte, alimento, hotéis – decreta, sem choro nem vela, que apenas quem tem dinheiro poderá participar da festa popular. A posse do dinheiro é o muro invisível que põe ordem na casa. Os grandes eventos esportivos – Olimpíadas, Copa da UEFA, Champions League, etc. – estão para as massas que não tem grana sobrando o mesmo que o Carnaval que inspirou Paulinho da Viola a compor o clássico “Foi Um Rio Que Passou Em Minha Vida”, protesto poético, entretanto, visceral contra a exclusão das massas em sua querida escola, a Portela, lá pela década de 1970 do século passado. Do mesmo modo que o Carnaval, o futebol se passa, cada vez mais, longe das massas. Podem dourar a pílula, mas é inegável a elitização do esporte mais popular do mundo.
Foram-se os tempos onde a Copa do Mundo era um encontro entre os melhores. A Copa de 1970, considerada o creme de la creme do futebol reunia 16 seleções, ou seja, 1/3 da quantidade atual, e a seleção vencedora tinha cinco meias de altíssima qualidade técnica (Gerson, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Pelé). Foi o coroamento da Era de Ouro do futebol e mal sabíamos que também era o canto do cisne, o canto final. Diria o cineasta Ugo Georgetti, autor de “Boleiros”: Era uma vez o futebol.
Mas não quero que esse texto de estréia seja uma ode à nostalgia. O futebol, assim como a poesia, tem seus mistérios. Mesmo nesse tempo onde impera a força e os esquemas táticos, sempre haverão novos Maradonas, Zidanes, Romários, Iniestas, Ronaldinhos Gaúchos.
O que pode nos reserva esta Copa 2026? A consagração do espanhol Lamine Yamal? A reafirmação de Killian M’Bappé? Será a Copa do Neymar, finalmente premiando o craque brasileiro dos últimos 15 anos? São gênios, capazes de, com a bola nos pés, desafiar leis da física e fazer valer imprevisibilidades que podem romper a regra do jogo.
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Joca
Sociólogo, ex funcionário público. Autor d'A Invenção da Palavra e Pequena História do Mundo (Fábulas voltadas para o universo infantil e infanto juvenil). A publicar: O Presidente Que Burlou o Golpe (fábula política).
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