Relutei o quanto pude contra essa mania que toma o cotidiano dos citadinos em anos de Copa. Na prateleira mais alta do meu armário há um pequeno acervo: álbuns, nem todos completos, das Copas de 2006 a 2022.
Quando, no jornaleiro da esquina, paguei no Pix e abri o álbum, senti um duríssimo golpe: mais de 900 figurinhas. Os álbuns são como ritos, mercados e objetos dotados de memórias coletivas, um grande experimento de sociabilidade entre crianças, famílias e até adultos interessados nesse fenômeno que ocorre a cada quatro anos. Ainda assim, é possível perguntar: qual é, afinal, o seu impacto?
Não trago respostas; compartilho um hábito: compro poucos pacotes em cada banca. Três aqui, quatro ali, três acolá, e assim acredito que driblo as repetidas. Mas este texto não é sobre técnicas para evitar repetidas, nem sobre como financiar grandes empresas globais e seus bilionários misantropos. É sobre uma experiência quase antropológica: a primeira vez que fui ao shopping trocar figurinhas da Copa do Mundo de 2026.
A área de trocas é um mundo à parte do shopping: um espaço barulhento, lotado, com gente ávida, nervosa e ansiosa para completar o álbum. Tive de parar e mapear por onde entrar antes de sermos engolidos por uma criança com um bolão de repetidas fora de ordem. No fim do corredor, ao lado de uma sorveteria, sentado sozinho, um senhor de cabelos brancos, óculos de fundo de garrafa, provavelmente sexagenário, e uma camisa vermelha ajeitava um bolinho de figurinhas sobre uma mesa improvisada.
Perguntei se estava trocando. Ele disse que sim, mas que teria de esperar, pois estava anotando no aplicativo do celular o que acabara de trocar com outra pessoa. Enquanto aguardava, soltei algumas frases soltas:
Nossa, está cheio, né?
Ele sorriu de canto, suspirou e respondeu com tom de especialista:
Menino, você não viu nada. Venha domingo que você vai ver o inferno na terra. Hoje está tranquilo.
Trocamos os bolinhos. Ele tinha muitas figurinhas que eu não tinha. Como havia separado várias, perguntei:
Faltam quantas para você?
FWC 8 e Qatar 3 – respondeu.
Já tinha separado para lá de vinte figurinhas e fiquei meio sem saber o que fazer, até ele dizer algo como:
Filho, pode ir pegando. Qualquer coisa eu pego uma repetida sua. Repetida é repetida. É tudo igual. Não tem essa de jogador do Brasil vale dois. Isso é bobagem que essas crianças criam. Eu só queria a atualização do Brasil; desses outros países não faço questão não.
O álbum está desatualizado. Por exemplo, no Brasil tem João Pedro e Estevão e não Neymar e Rayan. No fim, eu tinha as que ele precisava e ele tinha várias que me faltavam (no momento que escrevo ainda faltam muitas). Fiquei feliz por ter ajudado a completar parte do álbum e brinquei que ele havia se livrado da zorra que é trocar figurinhas no shopping. Ele estava contente, mas não estava aliviado. Enquanto atualizava o aplicativo disse que voltaria amanhã para ajudar outras pessoas a completar seus álbuns.
Ali percebi que o importante, para ele, não era apenas completar o álbum, mas conversar com as pessoas, interagir, se ocupar e se sentir parte de algo. Isso o impactava de alguma maneira. Afinal, Copa do Mundo é um pouco disso, né? No momento que finalizo esse texto, alguns amigos perguntam à onde assistirei Brasil versus Marrocos no sábado. Ainda que esta Copa, ao menos nos Estados Unidos, venha se mostrando perigosamente à mercê de forças contrárias aos nossos interesses, trocar o FWC 8 pelo escudo do Irã e o Qatar 3 pelo 20 do Curaçau despertou um espírito de que há algo de comunitário, ainda que imaginário.
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Marcelo Viana Araújo Filho
Marcelo Viana Araújo Filho é doutorando em história, apaixonado por esportes e que encontra na literatura um refúgio muito necessário. Adora o calendário em ano de Copa do Mundo ou Olimpíada e não perde, de forma alguma, um jogo do seu time do coração: O Fluminense F.C.
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