O árbitro brasileiro mexe co’a estreia

Será a atuação do árbitro brasileiro no jogo de estreia da Copa do Mundo mais infame que o trocadilho no título desta crônica? Wilton Pereira Sampaio distribuiu três cartões vermelhos. Não sei se é mais raro do que a participação de árbitros canarinhos no campeonato, porém é um recorde tão no início dos trabalhos. Lembrei-me de um episódio de “Os Simpsons”, em que Homer vira técnico de um time de liga infantil. Umas das piadas era a tendência do patriarca em expulsar os jogadores rivais do time de seu filho. Por que tantos cartões vermelhos? Nervosismo com a tarefa? Uma afinidade secreta com outros latinos? O mistério e as queixas da África do Sul permanecem.

Outro motivo para infâmia foi quando justificou em inglês a expulsão do jogador Zwane no segundo tempo. Entre o idioma ressignificado em salsicha e a expressão de Nazaré confusa no rosto do sul-africano, a Copa do Mundo de 2026 ganhou seu primeiro meme. As comparações com as tentativas desastrosas do técnico Joel Santana com a língua do Tio Sam foram inevitáveis como a vitória do México. Raúl Jiménez fez o segundo gol, apesar da desconfiança com a idade (tem 35 anos) e sua condição física após uma fratura grave no crânio (fez gol de cabeça). O que poderia ser a manchete inspiradora, com a superação e consagração de um atleta em seu país natal se tornou secundário perante uma barreira mais intransponível que um goleiro em dia de graça: linguagem truncada. Dependendo da performance futura de Wilton, ele pode almejar uma carreira como garoto-propaganda como fez Papai Joel. Quem sabe uma dupla? Pessoal do marketing, dei a dica para uma mina de ouro.

Os trending topics não me deixam mentir. Dentre as várias críticas à atuação do árbitro, minha favorita é de Web3Nomad: “Os jogadores acharam que era futebol. O árbitro achou que era UFC.” Considerando algumas entradas da África do Sul, duvido que tenha sido apenas Sampaio a ter essa impressão. No fundo, desconfio. Então, de onde vem a rigidez de Wilton Pereira Sampaio, tanto na fluência com outra língua quanto nos cartões? Em um depoimento para o Uol Esporte em outubro de 2025, ele comenta que largou a carreira de professor de educação física em escola militar para seguir o sonho de arbitragem. Aplicou a diligência de seu antigo emprego na nova função: preparação física, alimentação balanceada, instrução técnica e estudo de idiomas, tudo acompanhado por especialistas. Olha… a sugestão para o futuro seria revisar parte dessa rotina, seja o profissional empregado na assistência ou o tempo separado para uma dessas tarefas. Se tem algo que atletas e concurseiros sabem é que não é o conhecimento que faz o monge, mas o hábito.

Para não ser injusto, retomo a pergunta: seria nervosismo um fator? Pense no seguinte: você é o primeiro árbitro brasileiro a apitar uma estreia de Copa do Mundo. É o segundo tempo, há regras novas, o clima está tenso, todos os olhos em cima de você, inclusive do VAR. Não estranharia se toda essa adrenalina combinada resultasse em um gol contra simbólico. Sei de pessoas fluentes em vários idiomas, que inclusive dão aulas, mas que se perdem como náufragos em momentos de urgência que também exigem a utilização dessa habilidade. Eu me incluo na categoria. Nem mesmo minha língua materna está a salvo, pois minha gagueira ressurge em picos de estresse. A meu ver, há motivos válidos para julgar inconclusiva a aptidão do árbitro com outros idiomas. Contudo, aconselharia incluir na rotina de treinos recitar a língua de Shakespeare enquanto tenta defender investidas como as de Jiménez e Quiñonez. Se isso não resolver, não sei o que mais poderia.

Restam os cartões vermelhos: de onde eles vieram, do que se alimentam? O técnico da África do Sul sequer protestou contra o primeiro dado a seu jogador, logo, temos uma resposta parcial. O segundo foi ofuscado pela tangente idiomática. O terceiro foi aplicado contra um jogador mexicano Montes, com a aprovação (ou indiferença) do VAR. Se os torcedores estão em polvorosa, a avaliação técnica até o fechamento deste texto manteve-se positiva. Logo, das acusações de atentado contra um idioma estrangeiro e aplicar tapa por tapa, entrada por entrada contra a equipe da África do Sul, absolvo Wilton Pereira Sampaio. A ser reconfirmado ou não.

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