Os agnósticos hesitantes

Talvez a culpa seja de meu circuito social, mas a maioria dos que converso despeja uma descrença com a Copa do Mundo que beira à indiferença. Sim, ela existe, começa logo, e daí? Contudo, enquanto escuto o noticiário matinal ou caminho pelas ruas, uma sensação contrária me ataca. Avisto casais com camisetas da seleção, troca de figurinhas na padaria, notificações de reuniões, com direito a telão, em igrejas a espaços dedicados a eventos políticos. Sim, a Copa do Mundo ainda importa para muita gente. Talvez o abismo seja entre aqueles que apenas querem uma desculpa para festejar ou os que realmente acreditam em mais um título para aqueles que viram tempos melhores, em que afirmar que a seleção brasileira é grandiosa era uma constatação, não uma utopia.

Faço parte de um grupo de whatsapp dedicado ao tópico do futebol em todas suas dimensões: o arte, o comercial, o brasileiro, o estrangeiro (ou seja, europeu), o amador, o profissional, o antigo, o corrente. É um pessoal tão animado em suas discussões que me questiono se a maioria tem empregos ou louça à espera na pia. Costumo apagar as mensagens sem lê-las, pois me falta tempo e disposição para acompanhar envios que passam de centenas diariamente. Entretanto, nessa semana em que os jogos têm início, tenho dado mais atenção. Nessas conversas entrecortadas, descobri uma terceira reação: o agnosticismo hesitante. Embora a maioria não acredite que o nosso escrete trará algum troféu, também aceitam a possibilidade. É como se a expectativa pelo desejo de título fosse tamanha que superaria as previsões realistas. Claro que há reclamações e críticas ao elenco (um nome em particular cai e rola nesse campo com frequência), mas também há hipóteses, teorias, fórmulas de como, talvez, esse time possa marcar resultados positivos. É como se um grupo de adultos brincasse com um kit de química infantil: se misturar laranja com coca-cola, que gosto teria? Se puser Neymar apenas no primeiro tempo e substituir por Endrick ou Vinícius Júnior antes mesmo do segundo tempo daria lavada ou lavagem?

O bolão no grupo de whatsapp é um dos motivos para essa matemática delirante, porém o teor trai minhas tendências cínicas. Em meio às apostas, o tom de entusiasmo nas especulações seguem. O saudosismo das seleções brasileiras do passado, inclusive daquelas que não ganharam copas, não forma um contraste com as avaliações da escalação atual. É um paradoxo. As equipes de outrora ganham elogios porque atuaram exatamente como deveriam: como um agrupamento em que cada parte assiste a outra de modo a máquina funcionar no máximo de seu potencial. Por razões diversas e complexas para caber nesta crônica, esse senso de coletivo se perdeu. O estrelismo, a necessidade de ser ídolo foi um dos fatores que levou ao desgaste da seleção no imaginário popular. Como na chamada do filme “Highlander – o guerreiro imortal”: “Só pode haver um.” De fato, teve “um”: Sete a Um, para ser preciso…

O aforismo atribuído a Nietzche de que onde há caos, há oportunidade, é aplicado à noção de paradoxo. Após tantas decepções, a seleção brasileira de 2026 pode trazer um motivo de comemoração. Seja por inovações ou a interação entre veteranos e talentos recentes, talvez a máquina possa voltar a funcionar. O delírio dos esquemas carrega a surpresa de que há uma combinação funcional. O truque é encontrá-la. O paradoxo está em acreditar ao mesmo tempo que em que se berra que não há motivo para fé. A identidade secreta do saudosismo disfarçado de nostalgia é a chance de campeão. Claro que uma década foi melhor que a outra, mas se ambas conquistaram o torneio, isso é o que importa. Se os ídolos podem sair sem manchas de resultados, a lógica da torcida é diferente. Futebol bonito ou feio, o que interessa é aquele que traz um triunfo final. O grupo de whatsapp concorda que não parece que essa seleção será consagrada, mas tampouco retira dela a oportunidade de comprovar seu valor. Em resumo, são torcedores, acima de tudo. Por outro lado, máxima do Barão de Itararé me soa como um alerta: “De onde menos se espera, daí que não sai nada mesmo.”

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