Quando toca um tango, fico nostálgico, me lembro do meu vô dançando na sala, cantando os refrões em um portunhol ou embrometion emocionado, me lembro de ouvir os cantores portenhos ecoando em bares, igrejas e como trilhas sonoras de filmes e séries. Mesmo sem saber o que significava o tango para os argentinos, o que aquelas letras diziam e o jeito de dançar. Na minha cabeça é um lugar para pessoas elegantes e garbosas, terno e vestidos de gala. E se toca uma ou duas notas de Carlos Gardel eu paro pra escutar. Acho que reconstituo essas memórias como peças de um quebra cabeça.
Messi prometia dançar seu último tango em 2022, escrevi sobre isso, foi dramático, quase uma ópera, uma saga, foi eletrizante acompanhar a jornada do camisa 10 no Qatar, começou com uma derrota acachapante e terminou com La Pulga levantando a taça de campeão do mundo, chegando ao olimpo dos gênios que venceram a copa.
Era o final perfeito.
Era desligar a vitrola e seguir com a vida.
Parar de dançar na sala com o meu vô.
Guardar o último tango na memória.
Em um potinho especial para revisitar de tempos em tempos quando nos lembrássemos de 2022. Talvez já com saudade agora em 2026.
Mas, Messi se recusa a desligar a vitrola, ele segue bailando, brilhando, e em apenas 2 jogos em 2026 já marcou 5 gols, quebrou o recorde de gols e quebrou seu próprio recorde no jogo seguinte, ele não para. E ao que parece, seguirá nesse ritmo elegante, como os cantores de tango de terno, botando o povo pra dançar e se emocionar. Uma pena meu vô, apreciador de tango, futebol e Messi, não ver esse novo último tango do Messi. Pelo menos vimos juntos 2022.
É difícil escrever sobre Messi e sobre tango, eles operam em lugares muito sensíveis da minha memória, a arte e o futebol têm dessas coisas, eles criam dispositivos na memória, como faixas de um álbum clássico. Posso não me lembrar dos detalhes das letras ou dos gols, por vezes essa ilha de edição que é a memória pode embaralhar algumas coisas, mas me recordo dos anos de Copa do Mundo nesse misto de futebol, arte e memória. Em 2002, me lembro de ver o Brasil campeão com o braço quebrado e nesse ano ter me aproximado do fim da infância, em 2006, depois de uma eliminação traumática, ter descoberto novos amigos em um novo ciclo da vida, em 2010, sofrer por um amor não correspondido mais dor do que tomar uma canelada do Felipe Melo, em 2014, são tantas memórias de uma copa divisora de águas para o Brasil, festas, casamentos, eleição, cervejas e vinhos, em 2018, foram ressacas exemplares e 2022, uma lesão no tendão de Aquiles e uma pandemia. 2026 promete seguir nesse modelo.
Mais uma Copa, mais um tango, mais um copo, será esse o último de Messi? Já não sei, não posso mais duvidar desse extraterrestre, se é o maior de todos os tempos, não entro nessa, nem precisa, é um clássico, um fazedor de memórias, um criador de dispositivos tecnológicos humanos avançados que chamamos de emoções, uma jukebox que sempre toca mais uma. Aquela do bar mais antigo e mais conhecido do bairro, o bar da nossa infância, o bar dos bons momentos, aquele com balcão de madeira, baleiro, queijos e ovinhos coloridos, aquele com forró de sexta-feira e karaokê para os mais animados, aquele em que sempre toca aquela canção não esperada, aquela canção de berrar, aquela canção que aquece até os dias mais frios, e mesmo sozinhos, tomando uma cervejinha e comendo um amendoim na entrada do bar, olhamos para o fundo e vemos a jukebox com suas luzes acesas, trocando de discos e sempre nos revelando, e mesmo quando vamos embora, ela segue tocando quem chega, se recusando a encerrar o baile da memória, se recusando a nos devolver para o cotidiano.
Sempre que tiver uma jukebox terá alguém sorrindo ou chorando, sempre que Messi estiver em campo terá alguém dançando na sala.