Haja coração, a emoção brasileira chegou

Hoje foi teste pra cardíaco, assistir ao jogo do Brasil com narração de Galvão Bueno, um juiz confuso e um adversário duríssimo, a seleção brasileira demonstrou que sabe sofrer e sabe vencer jogos difíceis. E que sofrimento.

A emoção chegou na Copa para nós. Depois de uma primeira fase enfadonha, que classificou quase todo mundo, menos o Uruguai e a Itália (que nem pra Copa foi), enfim chegou a hora que a onça bebe água, o bicho pega, o couro come – mesmo que Canadá X África do Sul tenha lembrado os jogos de primeira fase. Hoje, ouvi fogos, gritos, berros e crianças celebrando, hoje teve trânsito, tensão e correria também, pela primeira vez. Haja coração. Acendeu o clima de Copa.

Brasil X Japão inauguraram os jogos memoráveis de Copa do Mundo, aqueles que contam histórias, viram filminhos da FIFA e ou de TikTok. São jogos assim que fazem o povo vibrar, se emocionar, se irritar, experimentar uma confusão de sentimentos de amor e ódio.
E como disse Eduardo Galeano, a gente se identifica com o time pelo nosso sofrimento, percebe que gostamos de um time quando ele perde e nós choramos, foi assim que ele se descobriu torcedor do Nacional de Montevidéu. Foi assim que nós entramos na copa, sofrendo, tomando um gol no começo do jogo de um simpático Japão. E foi assim o primeiro tempo todo, amaldiçoamos todos os jogadores brasileiros por não fazerem um gol e acabarem com nossa semana, nossas esperanças, nossa jornada ainda nesse começo de Copa. Um sentimento de fúria, de vergonha, de derrota. No intervalo, foram 15 minutos de desolação, nem carvão na churrasqueira estralou.

Por sorte ou competência, o treinador italiano mudou um pouco o jeito do time e empatamos com alguma tranquilidade, parecia até que a virada seria questão de tempo, ainda que nosso futebol não seja mais aquele tão apreciado por outro italiano, que nos classificava como futebol poesia.

Demorou pra virar. Não teve tanta poesia. Nem Vini Jr. nosso craque estava inspirado, até fez uma de suas jogadas geniais, driblou, driblou, bailou e bateu, para o melão bater caprichoso na trave e não entrar. Não é possível, tão difícil uma jogada poética e não saiu o gol. Não deve ser o dia da poesia.

O Japão segurou, como guerreiros, como haikaístas pragmáticos, segurando e amarrando o tchan até o finalzinho. Sem desorganização. E quando já preparava o amendoim extra pra mais 30 minutos de sofrimento, um lampejo de poesia marginal, uma ciência do erro, uma jogada estranha, Rayan roubou uma bola e entregou para Bruno Guimarães que de frente para o gol levantou a cabeça na hora do chute e virou o pé pra deixar Gabriel Martinelli na cara do gol – só fazer. Dessa vez a bola não quis nos deixar ainda mais irritados, bateu na trave e entrou. Azar do Japão. Sorte a nossa.

Ufa.

O juízão, outro italiano, não estava satisfeito com o rumo da prosa e ficou embromando o jogo pelo dobro do tempo acrescido, irritando uma nação inteira que na voz de Galvão Bueno pediu uma investigação criminal. Não é possível. Nosso sofrimento parecia não ter mais fim, mas não há mal que dure para sempre e até que enfim, depois de 11 longuíssimos minutos que mais pareciam 11 anos tivemos um final feliz.

Os berros voltaram a soar nas ruas, o som ganhou volume, as buzinas estralaram e o povo brasileiro não vê a hora do próximo jogo.

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