As semifinais da Copa foram recitais de duas escolas distintas, se por um lado a imponente Espanha, com seu método ortodoxo de jogar futebol, quase uma obsessão de seus jogadores em ter o balón, mesmo nas derrotas, e foram várias, muitas eliminações, vexames e uma pecha mundial de time chato, tico-tico e posse de bola que não ganha jogo. Eles têm um plano, uma metodologia, uma base desenvolvida ao longo de muitos anos, ouso dizer que pós 2006, todo o futebol da Espanha foi baseado nesse atual modelo. Com um grande destaque para o campeonato do mundo de 2010, vencido por uma Espanha, estilo Barcelona sem o Messi – olhem só as coincidências. O que falta no futebol da Espanha é uma anarquia de um Messi.
Contra a França, os espanhóis botaram os franceses – até aqui o melhor time da Copa – pra correr, e não viram mesmo a cor da bola, nem a cor das chuteiras dos jogadores adversários, o que o Cucurella jogou foi uma barbaridade, ele que tem uma cara e um espírito de filme do Almodóvar. O meio de campo com Rodri, Fabian e Olmo pareciam se multiplicar em campo e de passinho em passinho como formiguninhas atômicas ficavam com a bola no pé como um amante em começo de relação. Como um animal lambendo sua cria. Foi um amasso.
Já na Argentina, sobra anarquia, também no despacito para fazer correr o balón, no ritmo de seu maestro Messi. Escolhem o ritmo mais cadenciado, como um tango de veteranos, só se arriscam o necessário e evitam correr à toa. E sua trajetória foi toda acidentada, se suas livrarias e cinema são mágicos e exemplos a serem seguidos, seu futebol não pode ser copiado, é único, caótico, por vezes parece que não irá dar certo. Como em jogos como Cabo Verde, Egito e Suíça. E no fim acaba dando certo. Não tem explicação, o caos é instaurado e a raça argentina sobe e desce montanhas.
Contra a Inglaterra, era mais do que um jogo, para os argentinos o maior rival, não sei se pros ingleses, acho que aquele que apanha nunca esquece. Pelas Malvinas e pelas invasões inglesas o jogo extrapolava a questão esportiva, e os jogadores entraram nesse espírito. O time inglês comandado por um alemão estava me surpreendendo por não demonstrar ainda na Copa seu comportamento corriqueiro, uma coisa meio chá da tarde, caras entediadas e anfitriões irritadiços, eles que se gabam de terem criado o jogo, são os donos da bola mesmo, só participam para perder e perder, não parecem ter essa obsessão pelo balón. Talvez estejam ainda em uma torre de Marfin contemplando um jogo que eles juram que inventaram. Deu a lógica. De camisa azul, com ou sem a mão de dios, Argentina vence os ingleses e Las Malvinas son Argentinas é exibido no gramado no pós-jogo.
O jogo da finalíssima promete ser esse confronto entre a organização e o caos, antagonistas que antes formaram o que foi o melhor futebol dos últimos anos, talvez do século XXI, o Barcelona (2008-2012) era a ordenação com cadência e posse de bola e a anarquia de seu camisa 10, Messi, comandado por Pep Guardiola.
O jogo já é uma vitória do despacito, o anti-futebol moderno, o futebol força dos ingleses da Premier League. Nos faz perceber o crime cometido nas categorias de base mundo afora, de escolher jogadores por seu tamanho ou força. Essa final será a maior vitória do futebol técnico, seja ele ordenado ou caótico, sem a bola no pé, mesmo que em pés pequeninos, não se ganha na força, dessa vez não ganharam.