Para ser o país do futebol não é preciso ter sido seu criador, assim como não é preciso ser o inventor da crônica para dizer que ela é um gênero brasileiro. Há quem diga que o futebol foi inventado na Inglaterra, outros afirmam já existir uma coisa parecida com o futebol na China. A crônica também não é um gênero criado no Brasil, embora o jeito brasileiro de fazer não encontre paralelos com outros modos de escrever – não que eu conheça.
Nos campos de grama e das letras europeias estão toda a tradição e o conjunto de regras de quase tudo, o motivo a gente já sabe – colonizadores. Mas foi por aqui, nos pampas brasileiros que o jogo e o texto criaram ginga. Como um boneco de madeira recebendo sua alma.
Nossos vizinhos latinos também fazem bonito com a bola no pé e a caneta na mão – hoje computadores.
Ontem (05/07/2026) o Brasil foi eliminado pela Noruega, terra de pouca tradição no futebol, na crônica não saberia dizer, nunca li um cronista norueguês, sei que eles têm grandes dramaturgos, 4 nobéis de literatura (Chile tem 3) e são muito altos e fortes. Falta a ginga.
Tem também um Halaand gigante pra chamar de seu, o que não temos.
Foi uma eliminação merecida de um time covarde, sem nenhuma alegria e tão pobre de ideias que não seria capaz de escrever uma crônica mesmo se tivesse vencido. E poderia ter vencido, se Bruno Guimarães converte o pênalti, se quem sabe Vinicius Jr. acerta seu chute no gol, se Endrick faz o gol, se o aleatório entrasse em campo e nos ajudasse. Se o “se” jogasse.
Estava esperando o melhor momento para escrever sobre Vini, sobre Matheus Cunha, sobre Bruno Guimarães, procurando argumentos para defendê-los como grandes jogadores, querendo acreditar em nossos zagueiros, volantes e laterais, me esforçando, mas não tem literatura fantástica que consiga dar conta de criar um texto exaltando esse time. Não existe crônica ufanista capaz de dar conta de um time tão sem alma, sem pegada e sem identidade.
São um arremedo de time, comandados por um técnico Italiano que fala espanhol e português, mas não se entende com seus jogadores, que leva um ex-jogador em atividade, um popstar e ídolo de tiktok.
A crônica não vive mais seu auge, sobrevive de sites, blogs e hora ou outra um livrinho magrinho condenado a ficar do lado da seção de poesia, perto do banheiro, os jornais e as livrarias não tem mais espaço para crônicas, esses espaços também se tornaram sisudos, sem ginga, talvez comandado por Italianos ou Ingleses, resultadistas e vendedores de patrocinadores.
A crônica mais vira-lata possível também não daria conta de explicar tanta mediocridade de uma seleção que não nos representa, como textos criados por I.A, ou artigos acadêmicos padronizados e traduzidos pelo ChatGPT não tem alma. Uma tristeza ver nossa tradição de ginga, da camisa amarela ser desperdiçada ou trocada por apostas em bets e alguns milhões de reais para uma instituição podre que é a CBF.
A mudança para retomar algum caminho seria um investimento sério em formar novos jogadores de futebol e novos escritores e escritoras, fazer do nosso futebol e da nossa crônica nossa bandeira, não sei se consigo acreditar nesse interesse público/privado.
Nossa sorte é que ainda nascem por aqui bons jogadores e bons escritores, mais sorte do que juízo.