Cá em Lisboa já escuto sinais e alaridos da minha 18° Copa do Mundo. E afloram as lembranças. Em 58, a ternura dos meus 5 anos permitiu que só a final entrasse para a minha memória. Foram 5 gols do Brasil, foram 5 vezes que meu pai e tios me jogavam para o alto, como se eu fosse uma bola. Assustado, preferia ter sido um a zero. Fora o medo de voar – que não vingou, pois adoro avião – e a gritaria demasiada aos tímpanos de uma criança, percebi um momento de extrema felicidade coletiva. Com o tempo, a consciência da História aliada ao êxtase memorável daquela tarde de junho de 58, veio a certeza de que aos 5 anos vivia num país feliz. Desdentado, porém feliz. Mal alfabetizado, pobre, ingênuo, ainda semi escravizado, porém feliz. A música ensaiava para o mundo os primeiros acordes da bossa nova. A arte pulsava. A arquitetura se impunha com personalidade. O Made In Brasil na indústria emergente era orgulho nacional. O povo cantava e dançava nas ruas, desfilavam corpos quase desnudos nas praias, algumas meninas já ousavam conhecer o sexo que sucedia o beijo romântico nos escurinho do cinema. Claro, abutres golpistas rondavam a democracia brasileira, mas foram depenados pela habilidade de políticos decentes, de instituições firmes e de um presidente que sorria. Não sou saudosista paralisado, mas sinto hoje que tudo está diferente. Não sei escalar o time do Brasil, como sei na ponta da língua titulares e reservas de 58, 62 e 70. Cultura inútil à parte, não percebo o Brasil feliz. Abutres de outrora revoam sobre nossa civilização, com prestimosa ajuda de baratas que saíram dos esgotos a evocar mitos abjetos e nostalgias infames.
Impossível não pensar que minha 18° Copa seja desprovida da inocência, da pureza e da beleza de 58. Tenho pena. Meus filhos e meu casal de netos não viveram – dois deles um pouco – um país campeão, vibrante, promissor, pujante. Talvez seja desencanto meu. De um jeito ou de outro, torço sempre pelo Brasil. E que joguem a criança que me habita pro alto, tantas vezes for preciso, em festejos de esperanças além do futebol, como merece um país que insiste em querer ser feliz. Abutres e baratas que se danem.
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José Guilherme Vereza
José Guilherme Vereza é publicitário, redator, diretor de criação, escritor, ficcionista, cronista, roteirista. Pós graduado em Pedagogia, acrescentou o “professor” nessa lista de coisas que gosta de fazer. E não para por aí. É pai de quatro (objetiva e subjetivamente), avô de dois, metido a cozinheiro, botafoguense típico, ama escrever. Ter sido convocado para o timaço do Crônicas da Copa é seu imodesto gol de placa.
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