Joga sério, brinca depois

No dia 13 de junho, dia da estreia da seleção brasileira na Copa de 2026, reservei parte do tempo matutino para praticar exercícios físicos, fui a academia. No caminho, algo em torno de dois quilômetros de caminhada, passei em frente a um society: aquelas famosas quadras que se popularizaram no Brasil, onde se fazem aluguéis mensais para pessoas baterem uma bolinha uma ou duas vezes por semana. Passo quase todos os dias em frente a esse society e em algumas manhãs juntam-se ali crianças, adolescentes e famílias em torno de um sonho: o estrelato futebolístico através de um novo jogador ou jogadora profissional. Neste 13 de junho não foi diferente.
Neste society ocorrem as famosas “peneiras”, ali crianças e adolescentes podem iniciar suas longas trajetórias no futebol profissional, e junto a elas, sonhos de realização familiar caminham conjuntamente. Passei, olhei e parei para observar momentos daquele processo seletivo. Gritos, toques na bola, mais gritos, famílias atentas, orientações dos treinadores na quadra, crianças e adolescentes tentando manter a concentração e mais alguns gritos.
Em meio ao gritos estridentes, captei certo diálogo entre dois meninos do mesmo time, talvez na faixa etária dos dez aos doze: “ei, para de brincar, aqui é pra jogar sério!” disse um deles, e o outro prontamente respondeu “mas to jogando sério”. O diálogo ocorreu logo após o menino tentar um passe de letra para um outro colega de time. Um dos mitos fundadores do passe de letra remete a rabona: modo como foi conhecida quando executada por Ricardo Infante na partida entre Estudiantes de la Plata e Rosário Central em 1948 em território argentino, já no Brasil tornou-se popularmente conhecida em 1957 pelos pés de um tal Pelé.
Mas voltando ao diálogo dos meninos, fiquei pensando sobre o jogar sério e o jogar brincando, ainda mais ditos por crianças/adolescentes. Antes de um esporte, o futebol é um brincar utilizando-se dos pés e da bola como ferramentas principais, pelo menos é assim que brinquei em meus anos de infância. Mas ali, por se tratar de um teste para ingressar na base de um clube, a ideia de ser sério fica mais ressaltada, afinal, testes cobram seriedade. Mas são crianças não é mesmo. Além disso, o jogar futebol brincando, por anos, foi marca registrada do futebol brasileiro, onde grandes nomes do país fizeram sucesso mundo afora com esse jeito mais despojado de jogar o esporte da bola nos pés.
A cobrança de seriedade em crianças nos faz refletir sobre o modo como o futebol brasileiro tem tratado seus jovens talentos. Uma certa hostilidade burocrática e metódica que mata invenções criativas que só a arte do brincar poderiam desenvolver. Talvez esteja aí um de nossas maiores crises atuais: um futebol modorrento, burocrático que pune qualquer subversão desta lógica, talvez seja daí que venha nossa escassez de centroavantes goleadores, laterais que marcam e atacam com extrema habilidade ou camisas dez que cadenciem, aqueçam e esfriem os jogos quando quiserem. Talvez esteja aí o joga bonito que tanto marcou gerações no país, mas que deu lugar ao joga sério, e mais ainda, joga sério, brinca depois.

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