A copa “machucada”

A Copa “Machucada”

Na falta de um termo melhor, escolhi a palavra “machucada” para definir minha percepção inicial da Copa do Mundo de 2026 que, pela primeira vez, será realizada em três países: EUA, Canadá e México. Buscando em minha memória, a de um senhor com mais de seis décadas de vida, não me lembro de tamanha apatia às vésperas de um torneio tão marcante para nós, brasileiros, que tantas alegrias e decepções já nos causou.

Nos anos dourados, quando a Copa se aproximava, eu (e todos ao meu redor) ficávamos elétricos, ansiosos pelo apito inicial. A mídia colaborava com comerciais inesquecíveis, e as ruas, bairros, casas e lojas ganhavam cores. Era um frenesi coletivo, gostoso de viver.

Desta vez, talvez pela confusa situação política mundial — com guerras, restrições e um belicismo acentuado, incompreensível para o cidadão comum —, o torneio parece mais um distante espetáculo de Hollywood do que uma competição esportiva capaz de mobilizar povos de diferentes etnias e tradições em uma mesma vibração fraterna. A FIFA também não ajuda, estabelecendo preços de ingressos inalcançáveis para a classe média da maioria dos países participantes. E olhem que serão quarenta e oito seleções desta vez, inchando o torneio e esticando a logística.

Por mim, acho democrática a participação de mais seleções; o sistema anterior (16, e depois 24 e 32 times) era muito elitista. E o futebol é tudo, menos elitista. Talvez por isso seja o esporte mais popular, eliminando barreiras idiomáticas, sociais e culturais, aproximando as pessoas. Suas regras são simples, os esquemas táticos são decifráveis por torcedores atentos, e os principais jogadores são conhecidos pelas massas, com suas jogadas exuberantes, estilos de vida idem e, claro, suas polêmicas, que só alimentam o interesse.

Dito isso, confesso que nunca concordei com a escolha do técnico, nem com as escalações ou esquemas de jogo em nenhuma edição. Eu prometia torcer pela Itália (impossível agora, pela terceira vez consecutiva os tetracampeões sequer se classificaram) ou pela Espanha, minhas nações de coração, além da Inglaterra, que sempre faz meu coração bater mais forte. Mas é impossível: uma vez que a bola rola, não consigo deixar de ser brasileiro. É uma emoção no peito, difícil de descrever ou reduzir a palavras. O “escrete canarinho”, para usar o jargão antigo, sempre me emociona.

Nesse momento, esqueço que não gosto deste ou daquele jogador, que não simpatizo com o técnico, que detesto os cartolas corruptos e a manipulação da boa vontade do povo. Eu me torno parte de uma massa de milhões, irmanado por um transe coletivo, sempre esperando um belo lance, um gol definitivo, a classificação. Eu tenho experiência, meninos: já gritei “É Tri!”, já gritei “É Tetra!”, e já urrei “É Penta!”. Sou um privilegiado, eu sei. E espero, do fundo do coração, estender essa sensação deliciosa a todos nós desta vez.

Vamos, Brasil!

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