Carlos Machado edita o site Alguma Poesia, e, no número 573, do dia 27 de maio de 2026, poesia-net aborda a relação entre poesia e futebol. Agradeço Humberto Werneck por me enviar a matéria, formada por um time campeão da poesia brasileira.
Carlos Drummond de Andrade diz que “futebol se joga com a alma”. Vinicius de Moraes comparece com um soneto que dá inveja a qualquer sonetista: faz um poema como se irradiasse um gol de Garrincha, o anjo de pernas tortas. João Cabral de Melo Neto enaltece Ademir da Guia e, numa quadra, faz o que nenhum cronista esportivo foi capaz de fazer, definindo o que esse craque apronta com seu adversário: “Ritmo líquido se infiltrando / no adversário, grosso, de dentro,/ impondo-lhe o que ele deseja,/ mandando nele, apodrecendo-o.”
Não podia faltar outro botafoguense, o mineiro Paulo Mendes Campos, com um soneto que parodia o célebre “Círculo vicioso” de Machado de Assis. Nesse texto, o Paulo envolve humoristicamente Macalé, Moacir, Mané e Pelé. Ferreira Gullar, em um poema que flerta com o concretismo, aborda a esfera que espera pelo chute que dispara e vai chegar sabe onde? Conto não. Procure o texto.
Compositores também dão seus shows de bola, e ali está Gilberto Gil num bre poema epistolar dedicado ao Afonsinho, aquele barbudinho que tinha forte presença política nos gramados. Gonzaguinha desembola uma canção para Geraldinos e Arquibaldos, nomeações que as modernas arenas botaram sob o tapete.
Paulo Leminski, em sucinto poema, fala do time de várzea. Glauco Mattoso com indefectível soneto sobre jogo bruto, com jogador erguendo o solado feito um carrasco ou Carrascal.
Isso me inspirou a escrever um soneto sobre uma panturrilha muito comentada:
SONETEMPATURRADO
Barriguinha ou batata da perna
Assim é chamada a panturrilha
A água mineral ali hiberna
E um monte de coisas ali se empilha.
Pois o estômago não se dá ao luxo
De agasalhar tudo o que é consumo
Daí que as pernas têm outro bucho
Que dão ao digerido um outro rumo.
A batata da perna, nobre inglesa,
Acostumada a um longevo reinado
Tem sua particular natureza.
Contribui pra que se jogue deitado
Agrada-lhe a histeria, o like, o urra.
Alimenta a mídia que se empanturra.
(cjm)