Um surfista fez dois dos três gols do Brasil sobre o Haiti. Devemos nos alegrar, ainda mais sabendo que o rapaz é da Paraíba, estado de grandes amigos meus, em particular de Maria Valéria Rezende. Quer dizer, a religiosa e escritora nasceu em Santos e viajou meio mundo antes de ser adotada por aquele pedaço de chão que é onde o Brasil se encontra mais próximo da África.
Apesar do placar elástico, a seleção canarinho esteve longe de uma bela exibição. Não fizemos ainda nenhum jogo como o da Holanda contra a Suécia ou o da Alemanha contra a Costa do Marfim. Belos jogos, particularmente o último no qual o time do continente africano, mesmo tendo levado uma virada na prorrogação, jogou o fino. Não sei se seus atletas praticam o surfe nas praias de Abijã, mas que honram as chuteiras, ah isso sim. Oulaï, Diomandé e Diallo, sob a presidência do capitão Kessié, são craques de primeira.
Confesso que a situação do Haiti não saiu da minha cabeça enquanto vinte e dois rapazes quase todos nascidos pobres disputavam a bola. É um país que enfrenta tantos problemas, apesar de ter sido o primeiro a se tornar independente nas Américas, independência obtida por meio de uma revolta dos escravizados. Isso não significou nem prosperidade nem harmonia. Em 2004, o Brasil foi chamado pela ONU para liderar uma missão de paz por lá. Não resolvemos os problemas, além de termos contribuído para aumentar a violência. Nossos generais não deixaram saudades, e quando voltaram desentocaram o espírito golpista típico de nossos militares e quase ferraram nossa democracia adolescente. Eu sei que o futebol deve passar ao largo das questões diretamente políticas — apesar da Fifa, apesar das confederações nacionais —, mas o Brasil deve uma derrota aos haitianos na Copa do Mundo. Não foi agora, embora, como eu disse com amigos, depois do jogo me animei, acho que o Haiti vai longe.
Acabado o jogo, como havia ainda um pouco de vinho na garrafa, emendei no jogo entre o Paraguai e a Turquia. Um a zero seco para nossos vizinhos, mesmo com os turcos dando uns quinhentos chutes a gol. Treinem a pontaria, meninos, é o meu conselho. Um jogo tão chocho e o efeito do vinho me deram um sono tremendo. Dormi na poltrona. Acordei com o alarme do celular. Pelo que se sabe um hacker ou um bando deles entrou no sistema da defesa civil e espalhou por alguns estados uma mensagem antipática. Nela vinha a palavra “misantropia”. Ainda que não se saiba exatamente quem fez essa tremenda brincadeira de mau gosto, eu digo, é uma bola na treva.