A Última Tourada

Caro leitor,

Toda praça tem o seu último ato — e há sóis que se recusam a descer antes de vê-lo. Foi assim nesta Copa: uma arena banhada pela luz do entardecer de uma era, onde três toureiros vieram cumprir a sua derradeira faena — a dança final diante do touro. Não uma tourada qualquer, leitor. A última. Aquela em que o mestre já sabe, ao pisar a areia, que não haverá outra temporada — e por isso torna cada movimento uma despedida.

Por quase vinte anos, três nomes dominaram a praça do mundo. Messi, Cristiano, Neymar — a santíssima trindade do encantamento, os homens que fizeram da bola uma capa e do gramado um ruedo. Enquanto eles reinaram, o futebol foi espetáculo de sangue e ouro, de passe e veneno, de arte à beira da morte. Vieram, os três, para uma última tourada. Mas a praça, caro leitor, é cruel com os seus reis, e a cada um reservou um destino diferente.

Dois deles já penduraram a capa nesta Copa norte-americana. Cristiano, aos quarenta e um anos, tombou justamente diante da Espanha — o rei português derrubado pela mesma juventude que agora dança na final. E o nosso Neymar, aos trinta e quatro, caiu chorando diante dos lobos do Norte — mas caiu de pé, leitor, cobrando o pênalti que os outros temeram, marcando com a coragem que faltou à corte inteira.

Pois esse toureiro brasileiro não pôde sambar na sua última tourada. O bobo da corte — o mister que já conhecemos — proibiu-lhe a ginga, guardou-o no banco por questões que, dizem nos salões da corte, fogem ao domínio das quatro linhas, e só o deixou pisar a areia quando o sol já se punha sobre a praça. Deram-lhe o crepúsculo da tourada, nunca o meio-dia. E ainda assim, no escuro, ele encontrou forças para arrancar um último grito de olé de sua torcida.

Restou Messi. O último ainda de pé sobre a terra dos livres e o lar dos bravos, trinta e nove anos carregados como quem carrega uma vida inteira de faenas, sozinho diante do último touro. E que touro, caro leitor: uma fera vermelha que tomou a bola para si desde o primeiro minuto e passou a rodar a praça sem trégua, cansando o mestre, empurrando-o para as tábuas. Foi uma tourada às avessas — pois o touro é que investia, e ao toureiro coube apenas resistir, capa na mão, sem espaço para uma única verônica. E o lance mais perigoso daquela primeira metade não saiu dos pés do rei, mas dos de um menino do outro lado.

Porque do outro lado da areia, leitor, o tempo armou a mais pungente das cenas. Diante do velho rei postou-se um garoto de dezenove anos, Lamine Yamal — a joia que o mundo aponta como possível herdeiro do trono. Reparai na crueldade poética: existe um retrato, de quase vinte anos atrás, em que um jovem Messi, ainda no alvorecer da própria lenda, segura no colo um bebê. O bebê era ele, era Yamal. O colo virou adversário. Aquele que o rei embalou veio agora, na final do mundo, tomar-lhe a coroa. Assim gira a roda, e assim o tempo escreve as suas ironias — sempre com mão mais firme que a nossa.

Mas eis o feitiço, e é aqui que esta crônica brasileira encontra o seu coração. Pois o menino que veio destronar Messi não venera Messi. Cresceu, sim, admirando o argentino como se admira uma catedral — de longe, com reverência. Mas o ídolo de cabeceira, o jogador cujos vídeos assistia até de madrugada, o homem que foi visitar no Brasil, esse era outro. Era o nosso. Era o príncipe da Vila.

E então veio o intervalo — e o palco, que era de dois povos estrangeiros, foi tomado pelas nossas cores. Entraram Ronaldo e Ronaldinho ao lado de Madonna; e no telão, sobre a mesma terra de New Jersey, surgiu o maior rei do futebol. Pois foi ali, quase cinquenta anos atrás, num estádio que já não existe mas cujo chão é este, que Pelé se despediu do futebol diante de setenta e cinco mil pessoas. Naquela tarde ele não falou de gols nem de glória: falou das crianças, pediu ao mundo que cuidasse delas, e então pediu à multidão que repetisse com ele, três vezes, uma única palavra — love. Depois chorou — e chorou com ele, na arquibancada, um homem chamado Muhammad Ali. Meio século depois, sobre o mesmo solo, um coro de crianças devolveu a palavra ao ar.

Mas então o apito despertou-nos dos sonhos e das memórias do passado. Recomeçada a tourada, o touro voltou pior. Foram vinte investidas, doze delas buscando a estocada, e todas esbarraram num guardião argentino em estado de graça — o homem que segurou sozinho, por cento e cinco minutos, o desabamento de um país. Do outro lado, nem um só golpe certeiro. Nem um, caro leitor: a Argentina atravessou a final inteira sem obrigar o goleiro adversário a uma única defesa. Messi tentou até o fim, cobrou os escanteios, armou as faltas, enfiou a bola nos vãos que já não existiam. Não fez a grande atuação de sua vida — e o menino do outro lado tampouco. Mas ambos foram valentes, e valentia, na praça, vale mais do que talento em dia de sol fraco. O que faltou aos dois foi aquilo que nenhuma coragem compra: o instante.

E o instante veio, como sempre vem: sem se anunciar. Já na prorrogação, com um argentino a menos e a praça exausta, Ferran Torres — o homem a quem o guardião argentino negara tudo a tarde inteira — recebeu a bola escorada na área por Nico Williams, ironicamente também um fã do nosso camisa 10, e fuzilou de canhota. Uma estocada só. Foi o bastante. Ao cabo de cento e vinte minutos, o touro derrubou o toureiro, e a Espanha ergueu pela segunda vez a taça do mundo. Vale uma nota: após o jogo, nos corredores da praça, o homem da assistência parou diante de repórteres brasileiros para dedicar a conquista ao seu herói. Coube à nossa própria imprensa, que tanto o renega, ouvir de um estrangeiro o elogio que se recusa a fazer.

Reparai, então, na aritmética do destino. O Brasil não estava em campo — caíra nas oitavas, humilhado, europeizado, chorando. Mas o Brasil estava em tudo o mais. Éramos o intervalo, éramos a memória no telão, éramos o menino espanhol que assiste a vídeos de Neymar antes de dormir, éramos o protagonista da assistência dedicando a conquista diante dos detratores do seu campeão. A nossa alma não coube no avião de volta: ficou ali, encarnada nos olhos de todo o mundo, como que se recusando a deixar o palco. Perdemos a partida e continuamos donos da festa — pois há países que ganham Copas, e há um que inventou o motivo pelo qual as Copas existem.

É este o espelho que a final nos oferece. Saímos cedo e em prantos, enquanto o planeta dança a música que nós compusemos. Voltar a ser Brasil, descobrimos enfim, não é vencer todas as touradas — é lembrar que fomos nós que ensinamos o mundo a tourear com alegria. A taça pode ir para qualquer um; o estilo, esse tem sotaque, e o sotaque é nosso.

Voltemos, então, numa última firula, ao nosso principal toureiro brasileiro, o Príncipe da Vila — mas agora não para chorá-lo, e sim para falar dele de pé. Porque nem todo herói que cai da praça está morto; alguns apenas foram dados como acabados cedo demais. Em 2030, aos trinta e oito, ele será mais novo do que Messi é hoje, mais novo do que Cristiano foi ao cair. A idade não o expulsou: foi ele que se despediu. E aquele garanhão italiano da Filadélfia, o de guarda canhota, ensinou ao mundo que sempre há mais um round guardado — basta querer subir os degraus.

E assim cai o pano sobre a era dos reis. Cristiano tombou diante da Espanha; Neymar, diante dos lobos do Norte; e Messi, o último de pé, tombou diante da mesma fúria vermelha, na areia de Nova Jersey, a poucos metros do chão onde Pelé chorou pedindo amor. Nenhum dos três saiu coroado desta última tourada. Os deuses foram embora sem a bênção final — que é, no fundo, o modo mais humano de partir.

Mas não chore por eles, leitor, nem por nós. Porque a arte não morre com os artistas: ela apenas troca de pés, de idioma, de continente. Estava ali, no menino que aprendeu a driblar vendo os vídeos de um brasileiro; estará amanhã em algum garoto descalço de uma várzea qualquer, que ainda não sabe que será rei. A taça é da Espanha, e é justo. Mas a magia — o molho, a ginga, o improviso, a alegria de tratar a bola como quem trata um tesouro — essa continua sem dono e com sotaque nosso.

A praça se esvazia. Os toureiros penduram a capa. E resta apenas, caro leitor, aquela escadaria de pedra ao longe, esperando para ver se um deles — o mais novo, o nosso — ainda terá forças para subi-la.

Compartilhar:

Curta nossa página no Facebook e acompanhe as crônicas mais recentes.