Os “andares” da Copa

O meu prédio tem vinte e seis andares e eu moro no vigésimo quarto. Vir em casa é teste de coragem para quem tem medo de altura; no dia a dia, o aperto mesmo é segurar a ansiedade de não saber o que dizer, nem para onde olhar nestes quase dois minutos de viagem.

Quando encontramos o vizinho, ficamos satisfeitos com um “bom dia” seco, disparado na direção da porta. O elevador insiste em fechar devagar, como se tivesse prazer em prolongar o constrangimento de todo mundo ali dentro. Tem dias em que até esquecemos o celular em casa, só para não dividir o silêncio com o (des)conhecido do andar de baixo.

Olhamos fixos para a sequência de andares. Ficamos com medo da campainha da “capacidade máxima” anunciar, em alto-falante no elevador do trabalho presencial, aqueles quilos teimosos que só a gente sabe onde se escondem.

No silêncio interior, o medo muda de rosto a cada viagem de elevador: ora é o senhor com as compras do Sacolão, pronto para narrar a epopeia das laranjas esquecidas, ora é a senhora que transformou as crianças da piscina em caso de segurança pública.

Nos dias de Copa, o elevador é promovido a mesa de botequim.

No décimo terceiro andar, entra um sujeito com camisa vermelha do Brasil, garantindo que não tem mais amigos que usem a amarelinha, embora ele mesmo tenha uma coleção escondida no próprio guarda-roupa.

O elevador arranca com um solavanco tímido, como se soubesse que, dali até o seu destino, ainda cabem mais polêmicas, zebras e pelo menos uma reclamação contra o síndico.

Falam da torcida norueguesa, do patinho mexicano, das classificações dos países africanos, dos frangos do goleiro do Uruguai e, por fim, do Vozinha nos 16 avos da Copa.

— Vamos ver o jogo no Tobias? — pergunta o vizinho do 2002, aguardando alguma resposta positiva.

Lá embaixo, quando a porta se abre no térreo, cada um sai do elevador fingindo retomar a própria rotina de trabalho, academia, mercado ou escola.

Esperando a sua vez de entrar, aquele bem-humorado arrisca:

— Subindo com o Vini Jr.?

— Até onde der — respondo sem responder. “Cada jogo por vez”, arrisco em silêncio, sabendo que já não somos os melhores do mundo. Recebo um olhar de reprovação, como se meus pensamentos tivessem sido descobertos:

— Só tem doido neste prédio, papai! Não sei por que vocês têm tanta paixão por uma bola! — e lá se vai o torcedor mirim, com a mochila nas costas, um mundo de crítica e um estádio de esperança no coração.

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