Camus – amigo e depois não mais amigo de Sartre, autor de “O estrangeiro” e defensor da ideia de que o suicídio é de fato uma questão filosófica – antes de ter tamanha visibilidade e conquistar o Nobel de Literatura, em 1957, foi goleiro. Ao que parece, mesmo não seguindo a carreira, o argelino teve o esporte como uma metáfora da vida. Outros, que talvez não deem tanta importância ao futebol, nem tenham obtido prêmios tão grandiosos, foram bons de bola e por nada não fizeram do gramado seu ganha pão.
Quer dizer, Aníbal Machado, autor do imenso “Viagem aos seios de Duília”, não só jogou como, atuando na ponta direita, fez o primeiro gol do Atlético mineiro, em 1909. O goiano, hoje professor da UERJ, Flávio Carneiro, por pouco não assinou contrato com o Guarani de Campinas, depois de pertencer aos times das categorias de base em seu estado.
Soube que o poeta e letrista Murilo Antunes, sócio do Clube da Esquina, chegou a fazer a peneira do Galo. Meu amigo do peito, Antonio Barreto, foi um verdadeiro centroavante que tomou de assalto a área dos concursos literários entre as décadas de 1970 e 1990, ganhando todos os existentes, no entanto, em campo, jogou como goleiro e, ao sair de nossa Passos, chegou a treinar no América mineiro.
Enfim, o futebol e a literatura têm seu namorinho, quer dizer, muito inho e pouco namoro, dado o tamanho de ambos. Se temos esses nomes que trocaram os pés pelas mãos, a chuteira pela caneta, pode-se dizer que é pequena a literatura com personagens do futebol. Não são os únicos, mas, de memória, me lembro do livro de contos da década de 1980, “Maracanã, adeus: onze histórias de futebol”, de Ediberto Coutinho, e das seguintes antologias: de 2005, “Contos brasileiros de futebol”, de 2009, “Paixão e ficção: contos e causos de futebol” e, de 2025, “Era uma vez: Flamengo”, organizados respectivamente por Cyro de Mattos, Luís Pimentel e André Salviano. No último, um dos contistas é o Sérgio Rodrigues, autor de “O drible”, um raro romance no qual o futebol é o pano de fundo. Não sei se o Sérgio jogou ou joga bola, mas descreveu com a sensibilidade de um atleta o gol que Pelé não fez contra o Uruguai, na Copa de 1970.
O lance de Pelé, aliás, nos coloca uma questão: o futebol se aproxima mais das artes plástica e da dança, mas, como é um esporte que se tem engessado, com muita tática e pouco drible, com muito compromisso e pouca alegria, vem perdendo sua magia pictórica. Surge então uma oportunidade aos escritores: descrever o trágico caminho da derrocada.