Sejamos honestos: para a grande maioria dos espectadores, as chances de o Equador vencer a Alemanha em um confronto de terceira rodada da Copa do Mundo eram baixas. O Equador tem bons jogadores, um técnico jovem, mas, até então, parecia não ter dado liga no torneio. Cenário bem diferente das Eliminatórias para a Copa na América do Sul, em que ficou na segunda posição, atrás da Argentina.
Assim como a vitória no jogo do Equador, outros jogos e outras seleções, digamos assim, menos favorecidas, mostram que, desde 1924, ano da Olimpíada da França em que o Uruguai sagrou-se campeão, a bandeira, o hino, o sonho, a esperança, o sentido que ganha a vida e a vida que se ganha a partir desses sentidos estão em campo. Está tudo ali. Esteve tudo no MetLife Stadium.
Uma nota que precisa ser feita é o contraste entre os jogadores do Equador e a sua torcida nas arquibancadas. O Equador é um país multiétnico e pluricultural. No entanto, a arquibancada era composta quase que inteiramente por pessoas brancas. Esta Copa vem mostrando fios e nós que, por vezes, temos dificuldade de observar, discutir e perceber para entender que, antes de qualquer coisa, ainda vivemos em uma sociedade burguesa, em uma sociedade de classes.
Como escreveu Hilário Franco Jr.: “Para quem deseja não ser mero sujeito da história, mas também seu agente, cada Copa pode servir, além de torcer, para pensar o mundo em que vivemos”.
O som do hino do Equador ecoava diferente; era como um grito de desespero. A bandeira esticada no gramado mostrava as três faixas horizontais de amarelo, azul e vermelho e, ao centro, o brasão nacional. Em um frame da arquibancada, nenhum celular: olhos cerrados, como quem busca bravura em algum canto de si.
O juiz apitou o começo do jogo. Vozes ecoavam pelas arquibancadas como quem, diante da inquietação e da impotência, só tem o som como arma: “Si se puede”. E o barulho equatoriano virou um estrondo silencioso logo aos dois minutos. Poucas coisas são tão ruins quanto sofrer um gol no começo ou no final da partida. A resposta veio cedo: aos 9 minutos, o empate. E o que, por uma eternidade de sete minutos, foi angústia virou sonho.
A camisa do Equador era prova dos anseios de um povo. “Los tricolores” vencer não era um erro: o erro está na constante necessidade que os entendidos têm de matar aquilo que o futebol tem de melhor: o imponderável. Aos 77 minutos, Plata vira o jogo, e Beccacece e seus comandados lutam por cada centímetro do campo e sustentam um placar dificílimo.
O Equador conseguiu um feito incrível. Está, pela segunda vez, em um mata-mata de Copa do Mundo. O país, aos olhos de milhares de espectadores, saiu das sombras e mostrou que merece brilhar.
Até o presente momento, a Copa do Mundo no Canadá, México e Estados Unidos vem mostrando que muitos dos países (e sua gente) que lá estão já não são mais aquele pequeno ponto em um mapa-múndi. São histórias, são memórias, foram heróis. Ainda há muito tecido a ser costurado até a grande final. O cronista que vos escreve está fechado com todos vocês. Hoje a noite somos todos caboverdianos.
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Marcelo Viana Araújo Filho
Marcelo Viana Araújo Filho é doutorando em história, apaixonado por esportes e que encontra na literatura um refúgio muito necessário. Adora o calendário em ano de Copa do Mundo ou Olimpíada e não perde, de forma alguma, um jogo do seu time do coração: O Fluminense F.C.
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