Como publicitário fui bem acostumado a trabalhar em duplas. Um redator e um diretor de arte. Havia também a possibilidade de dupla de redatores, que mesmo sem o cacoete do esmero visual, funcionava muito bem, desde que um deles – ou os dois – tivesse aptidões conceituais e amplas, além das palavras.
Saindo da propaganda e mergulhando em outras modalidades da criatividade humana mais diversa, encontramos duplas de criação que fizeram história.
Ira e George Gershwin, Tom e Vinícius, Marie e Pierre Curie, os irmãos Cohen, Lennon e McCartney, Simon e Garfunkel, Gordo e Magro, Chico e Edu Lobo, Chico e Francis Hime, Chico e Jobim, Milton Nascimento e Fernando Brant, Frida Kahlo e Tina Modotti, e por aí vai, na certeza de que estou esquecendo de tantos duos que fizeram a humanidade mais engrandecida, inteligente, sensível e orgulhosa da condição humana.
Agora, o futebol, arte quando bem criada não deixa nada a dever a tudo que emociona, enche os olhos, dispara corações. Espremendo a memória, sem apelar a chat gpts e tais, vou tentar citar algumas duplas eternas, no sentido mais encantador da palavra.
Pelé e Coutinho, Romário e Bebeto, Rivaldo e Ronaldo, Gerson e Jairzinho, Tostão e Pelé (ele de novo, sempre), Garrincha e Vavá, Zito e Didi, Zico e Sócrates, Mbappé e Dembélé, Messi e Messi.
Peraí, dupla não é de dois? É. Mas Messi é Messi. É mais que dois, é mais que quatro. Um dribla, passa para ele mesmo e outro Messi chuta. Um corre, deixa o adversário no chão e o outro Messi fuzila. Um desarma, o outro Messi dá assistência, ele mesmo encobre o goleiro.
Os exemplos, tal o cardápio de jogadas, são infinitos.
Sem fazer comparações aos criativos já citados e sem desmerecer seus coadjuvantes de equipe, Messi faz dupla com ele mesmo. Messi complementa Messi. Messi é um processo criativo coletivo numa pessoa só.
Aos que não viram Pelé jogar, eis aqui a chance de se embasbacar com a essência de um criativo pleno em movimento.
Se o tempo permitisse, nos concederia a graça de ver Messi e Pelé juntos em campo. Não seria nem uma dupla. Seria uma sinfônica, um coletivo de virtuoses, um corpo de baile inteiro, uma força da natureza criativa, uma manifestação divina.
Só de imaginar meu queixo cai.
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José Guilherme Vereza
José Guilherme Vereza é publicitário, redator, diretor de criação, escritor, ficcionista, cronista, roteirista. Pós graduado em Pedagogia, acrescentou o “professor” nessa lista de coisas que gosta de fazer. E não para por aí. É pai de quatro (objetiva e subjetivamente), avô de dois, metido a cozinheiro, botafoguense típico, ama escrever. Ter sido convocado para o timaço do Crônicas da Copa é seu imodesto gol de placa.
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