Não há como deixar de falar das marcas de Messi hoje, caro leitor. Não porque ele joga sua sexta Copa do Mundo, nem porque aniquilou o recorde de Klose e caminha para conquistar outras tantas marcas. Afirmo: estatística não entra em campo.

As verdadeiras marcas de Messi não estão nos números, estão no rosto, nas rugas do tempo, dos choros de tantas derrotas pela sua seleção, nos cabelos e sobrancelhas mais ralos, na barba por fazer, tem sofrimento ali, tem sangue argentino. Existem, com certeza, nas canelas, marcas de chuteiras desesperadas e menos habilidosas, acumuladas em anos de dribles e pancadas. Mas certamente, as principais marcas de Messi estão gravadas em nossas retinas, dos gols espetaculares pelo Barcelona, das arrancadas com a pelota grudada na canhota, da liderança e alegrias que presenciamos no Catar. As estatísticas, reitero, pouco importam. Quem é Klose? Era só um número, agora não é mais. Já Pelé, permanece, Ronaldo permanece, Maradona permanece, mesmo sem os recordes. E Messi…Messi ainda é, apesar dos recordes.
Aos 38, daqui dois dias, 39 anos, ele ainda joga em alto nível, faz cinco gols em apenas 2 jogos. De Copa, em partidas duras, só ele anotando, o time joga para ele, ele joga pelo time todo, pela Argentina, o país inteiro.
Pero, me desculpem los hermanos, Messi não é mais só da Argentina, é do planeta (bola).
Vamos ao jogo.
Mal começa a peleja e pênalti para o time alvi-celeste. Bola na marca da cal, lá vai ele para se tornar o maior artilheiro de todas as Copas: frio, impassível, concentrado, como sempre. Bate. E erra, como de vez em quando. Quem conhece Messi sabe que Messi costuma errar penalidades, principalmente em Copas, talvez só para lembrar que é humano. Aliás, se tornou o único jogador a perder 3 pênaltis em Copas, só para lembrar que estatística não vale coisa nenhuma.
Aos 37 do primeiro tempo, a Argentina desce em velocidade pela esquerda, Messi, que até então trotava na intermediária, acelera sem marcação. A bola é cruzada por um sujeito (em time de Messi, todos os jogadores são apenas sujeitos). Outro, no centro da área abre as pernas e faz o corta-luz, e Messi aparece ali sozinho, canhota preparada, para bater de primeira, no contrapé do goleiro. Golaço.
Agora não vou falar de recordes, porque são efêmeros.
Com o perdão do trocadilho, o que me deixa com a pulga atrás da orelha é como o pulga (sim, é esse o apelido do gênio) consegue, mesmo sendo a grande estrela em campo, passar despercebido por toda a zaga adversária. Ele não estava ali e, de repente, está. Com a bola, frente ao gol. De onde surgiu Messi? Para onde vai Messi? Até onde vai Messi?
Só pode ser teletransporte, eu digo.
Messi desaparece.
Messi reaparece.
No segundo tempo, morno e dominado pela superioridade argentina, o clima só esquentava quando ele surgia do nada, uma, duas, três vezes, para distribuir ou finalizar, entretanto o placar continuava mínimo. Só que Messi, não.
Eis que nos acréscimos da partida, em um contra-ataque, a bola cai nele, que serve com açúcar e afeto a um sujeito livre, que finaliza. O goleiro defende e, quem aparece no rebote, já dentro da área? Adivinha?
Messi se materializa com a bola colada na canhota, dribla um, dribla dois, bate, rebate, volta, bate de novo, rebote, canhota, mais uma vez, mais um gol, mais Messi. Explode o estádio, lá se vão as cordas vocais de todos os narradores e de uma nação apaixonada, não…arrebanhada por ele.
Esse fenômeno mágico do teletransporte de Messi tem acontecido o tempo todo na Copa, no primeiro jogo, contra a Argélia e neste, contra a Áustria. Os outros sujeitos da seleção argentina fazem seu jogo, brigam, roubam a bola, tocam, aceleram, e ele parece não estar em campo, até que está, do nada, correndo com a pelota amarrada na chuteira azul e branca, desespero!, pernadas, trancos, perigo!
Esse é o roteiro, previsível e irresistível, dessa seleção argentina: um ótimo time, cheio de sujeitos, e um maestro que evapora e ressurge quando há chances de gol. Foi assim no primeiro jogo, no segundo, e suspeito (espero) que em todos nessa Copa.
Quisera eu ter esse poder: me teletransportar às arquibancadas para ver Messi e os outros sujeitos jogarem. Ali, pertinho, olho no lance!
22/06/2026
Argentina 2 x 0 Áustria – Messi, aos 37´ e aos 94´