“Esse jogo nunca deveria terminar.”
A frase do narrador da partida exemplifica o espírito reinante no agora histórico jogo Cabo Verde vs. Uruguai. Se Cabo Verde surpreendeu e fez história contra a favorita Espanha, contra o Uruguai foi a reafirmação: a seleção de Cabo Verde já tem seu lugar na história das Copas independente do que acontecer no restante da maior Copa de Todos os Tempos; se reafirma como fenômeno da mesma forma que o camaronês Roger Milla em 1990 ou o árabe Owairan, autor de um gol antológico contra a Bélgica em 1994.
Quando Cabo Verde empatou contra a gigante campeã Espanha o resultado foi muito apropriadamente classificado como golpe de sorte; ao repetir a façanha empatar contra o bicampeão Uruguai, Cabo Verde ganhou o direito de alçar voo e não foi voo de galinha, como chamamos os voos curtos e incertos: momentaneamente Cabo Verde pode dizer em alto e bom som que é o terror dos campeões mundiais.
Foram resultados para se festejar de forma retumbante. Os cabo-verdianos estavam decididamente empenhados em aproveitar a oportunidade que nunca tiveram antes. Tenho a impressão que a preocupação deles não era com a vitória a qualquer preço, mas havia um sentimento coletivo que os incitava a fazer frente ao oponente. Ou seja, teoricamente poderiam encarar o adversário desde que compensassem a técnica menos sofisticada com a vontade. Ou seja, parece-nos vendo pela TV que seus jogadores tinham como principal objetivo sempre “chegar primeiro!” Ou, como gostam de dizer os comentaristas esportivos, “diminuir ou anular os espaços.” E naturalmente “não ter medo”, surpreender atacando, desnorteando o oponente. No jogo de ontem, em muitos momentos surpreendemos os uruguaios estupefatos com a “catimba” de Cabo Verde! Quem viveu, viu!
Foi perceptível uma diferença crucial entre a atitude da seleção de Cabo Verde e as seleções africanas que se destacam nos grandes torneios. Salvo enganos de minha parte, os africanos parecem empenhados em se divertirem, o que os leva a ser um quanto irresponsáveis, levando seus técnicos – geralmente europeus – a arrancar os cabelos de desespero por conta do enfático desprezo pelas “obediências táticas”. Cabo Verde, não! Disputam cada bola como se daquele lance dependesse a própria salvação! E para isso, sabem que tem de “chegar primeiro!” Nada de burocracias, esquemas complicados, expressões em outras línguas (alguém se lembra do famoso “overlapping”, popularizado pelo professor Claudio Coutinho, técnico da seleção brasileira da Copa 1978?) Os cabo-verdianos se atentam a ocupar ou diminuir espaços e olho atento!
Sua torcida parecia surpresa, como que saída de um sonho. Ou melhor, pareciam incrédulos com a própria façanha. O narrador estava certo! Era um jogo onde qualquer coisa acontecer e nada mais atrativo num jogo de qualquer natureza do que a imprevisibilidade. El loco Bielsa, o argentino que comanda a seleção uruguaia, que o diga!
Cabo Verde que nos deu a música da diva Cesária Évora e o menos conhecido, mas não menos importante multi-instrumentista Antônio Travadinha, pede passagem. Os dois, Travadinha e Cesária, devem estar sambando até agora ante os olhares incrédulos dos demais anjos e anjas! Por esses dias, o Céu é pura festa!
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Joca
Sociólogo, ex funcionário público. Autor d'A Invenção da Palavra e Pequena História do Mundo (Fábulas voltadas para o universo infantil e infanto juvenil). A publicar: O Presidente Que Burlou o Golpe (fábula política).
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