Se a moda pega…
João Nunes
Após a partida entre a poderosa (futebolisticamente falando, mas não só) Alemanha e a modestíssima seleção de Curaçao que terminou em 7 a 1 para os europeus aconteceu algo inusitado: um grupo de atletas da ilha caribenha se reuniu, ali mesmo no campo, e iniciou uma oração. Dois jogadores alemães viram a movimentação e participaram do pequeno rito.
Segundo o grupo, todos ali eram cristãos e estavam agradecidos – dois deles pela vitória e o restante pela dolorida derrota, no jogo ocorrido dentro da Copa do Mundo de Futebol, que se realiza nos Estados Unidos, no Canadá e no México. Claro, o gesto foi acompanhado de aplausos, comoção, simpatia nas redes sociais, esse mecanismo moderno de avaliar os fatos.
Sou do tempo no qual seguíamos frases feitas como mantra. Exemplo? “Não se discute religião, futebol e política”. Mas, já naquele tempo, a frase nunca se sustentou. Lembro-me de um movimento, no Brasil, que espalhou o cristianismo evangélico entre os jogadores de futebol. Foi uma febre.
Hoje, a fé está tão naturalizada no futebol que se tornou comum a cena de jogadores fazendo preces e alardeando, quando marcam gols, que não foram eles os autores, mas que a jogada foi executada por Deus. Sem falar dos que oram ostensivamente, ficam de joelhos ou permanecem abraçados e em posição de prece na disputa de penalidades máximas – jogando uma bomba nas mãos de Deus, obrigado a ter de decidir se beneficia o goleiro ou o batedor.
No plano religião/política, a coisa a está mais evidenciada ainda. Candidatos que nunca pisaram em uma igreja evangélica, de repente, se tornam “servos de Deus” e “ungidos” de olho nos votos desse atraente segmento religioso. Pastores que gritam feito alucinados em comícios e passeatas políticas também estão na ordem do dia.
Contaminados que estamos com religião, futebol e política, se a moda dos simpáticos jogadores de Curaçao e da Alemanha pega, daqui a pouco teremos outras disputas para muito além do futebol.
Imagine evangélicos sendo convidados a rezar com integrantes de religiões afros antes de um Corinthians e Palmeiras? Ou um desses carros de som de passeata repleto de candidatos evangélicos exibindo enorme imagem de nossa Senhora Aparecida? Imagine, ainda, católicos, integrantes de religiões afros e evangélicos discutindo qual oração, ou qual rito, ou qual cântico serão usados na reunião ecumênica antes de um jogo da seleção, enquanto montam barracas em frente aos estádios a fim de venderem camisas, bolas, bandeiras e lembrancinhas?
E imagine um evangélico tendo de cantar uma canção para Yemanjá? Ou um evangélico tentando convencer um católico a não mais rezar para a virgem Maria? Ou um afro impedido de vender suas imagens sagradas e cantar seus cantos ou sendo obrigado a ouvir discursos homofóbicos e gritos de um pastor histérico?
Os jogadores de Alemanha e de Curaçao pode ter edificado muita gente com o gesto deles, mas intuo que a experiência tenha sido ocasional e apropriada para eventos midiáticos como a Copa. No Brasil, no qual uma eleição dividiu milhares de famílias, pode-se debater sobre tudo; porém, deixemos a religião, a política e o futebol fora disso.
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João Nunes
João Nunes é formado em teologia e jornalismo, autor do livro “Paulínia – Uma História de Cinema” (Paco Editorial, 2019) e integrante e um dos fundadores da Associação Brasileira de Críticos de Cinema – Abraccine. Atualmente assina a coluna Sala de Cinema no site Hora Campinas (horacampinas.com.br)
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