Entre o sonho e o mapa

Desde quinta-feira, três países são o palco do maior torneio mundial da história. As nações param para apreciar um espetáculo que une culturas e se eterniza a cada edição. E a história sendo escrita diante dos olhos de milhares de pessoas de diferentes partes do mundo. Quarenta e oito seleções. Cento e quatro jogos. Mil duzentos e quarenta e oito jogadores. Milhões de torcedores. Sete milhões de ingressos vendidos. Dezesseis estádios. E uma simples bola.

O futebol nunca foi só um esporte. E jamais será. O coração responde antes da mente. Um choro, um sorriso, um grito que a gente não consegue explicar. É o gol que vibram os estádios que se transformam as casas, os bares e as ruas. É o abraço no torcedor desconhecido. Naquele momento vocês dois são a mesma coisa, o mesmo sentimento. É paixão. É pertencimento. É orgulho de ser de onde você é.

Diversos países terão a oportunidade de voltar a este belo torneio: Seleções que voltam ao palco mundial depois de décadas de ausência, como o Haiti, que retorna ao principal torneio do mundo após mais de 50 anos, quando lá em 1974 fez sua primeira e única participação. Os haitianos já estrearam diante da Escócia, em jogo do Grupo C, e mesmo na derrota carregaram nas costas o peso simbólico dessa volta histórica.

Tivemos também estreias inéditas, como a de Curaçao, que entrou para a história como o menor país de todos os tempos a disputar um Mundial. Estamos vendo, a cada jogo, histórias de superação que vão ficar gravadas na memória de quem assistirá. E estamos tendo aquela sensação única, que apenas o futebol, e sobretudo a Copa do Mundo sabe proporcionar: ver sua bandeira hasteada, seu hino tocando, e sentir que aqueles onze jogadores em campo carregam um país inteiro nas costas.

Mas o futebol também tem o outro lado da moeda. O lado daqueles que sonham em disputar um Mundial. E por mais que se esforcem talvez não cheguem a conseguir. Essa é a história das Ilhas Kiribati, um país localizado na Micronésia, no Oceano Pacífico Central. Dói saber que esse povo, que sonha em disputar uma Copa do Mundo antes que seu país desapareça, talvez nunca tenha essa chance. Kiribati é um arquipélago de atóis de corais perdido no Pacífico, e seu ponto mais alto tem apenas 81 metros acima do nível do mar. As mudanças climáticas provocadas pelo homem vêm elevando o oceano de forma acelerada, e em 10 ou 15 anos partes do território podem simplesmente desaparecer debaixo d’água, deixando mais de 100 mil pessoas sem um lugar para chamar de lar e uma nação inteira sem a chance de disputar o que para eles seria o maior sonho de suas vidas: a formidável Copa do Mundo.

Eles querem existir no futebol enquanto ainda existe no mapa. Para eles, não é sobre título e muito menos sobre taça, na realidade é sobre dizer ao mundo: estamos aqui, somos uma nação, temos uma história, temos um time e queremos disputar o maior torneio continental do mundo.

Percebemos então que o futebol une o que a política separa, aproxima o que a geografia distancia, e dá voz a quem o mundo muitas vezes prefere ignorar. Que essa Copa seja grande dentro e fora de campo. Que a gente torça, vibre, chore e se orgulhe, porém que a gente também saiba olhar para quem ainda está tentando chegar até aqui.

Porque o futebol é de todo mundo. Ou pelo menos, deveria ser.

dados: Que país é Kiribati? Ele pode desaparecer do mapa? | Ge
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