COMEÇA A COPA

Ao começar a descrever esse breve estado de espírito – pois é disto também que se trata esse gênero, “crônica”, o reproduzir na folha branca a motivação que o toma momentaneamente – tenho uma pequena desconfiança de que posso vir a ser um estraga-prazeres, o elemento que destoa da felicidade geral. Pois só se fala da festa que é a Copa do Mundo
Por isso relutei se devia ou não prosseguir, pois não é confortável ser estraga-prazeres. Recorri, então, a um velho e fiel expediente (mesmo tendo dúvidas de sua eficácia!) Apelei para os meus botões, eles mesmo, presença silenciosa e fiel, que não arredam pé por mais difícil que seja a confusão em que porventura me meti. Expus o problema e os botões estavam tão atentos que julguei a princípio estarem sonolentos. Expus meu impasse: o estraga-prazeres, aquele que destoa da opinião geral, também chamado do contra, cricri ou chato de galocha, é mesmo persona non grata numa sociedade que pretende civilizada?
Os botões relutaram um pouco mas a resposta veio: nem sempre a opinião contrária é o que parece. Pode não ser do contra, pode ser apenas a expressão de um ponto de vista, outro, visto de outro ângulo. Para não parecer pedante, lembre-se do filme “Rashomon”, do Akira Kurosawa. Três personagem relatam um assassinato, cada qual expõe a questão de seu ponto de vista. São sinceros e honestos, não estão mentindo. Por fim, até o espírito do assassinado vem do além expor seu ponto de vista. Podemos chamar “convivência entre contrários”, algo possível numa sociedade minimamente tolerante, organizada. Opiniões contrarias aguçam e aprimoram o debate, que assim não fica estagnado.
Dei toda essa volta para lembrar que alguns eventos ocorridos antes do inicio pra valer da Maior Copa de Todos os Tempos, estão contribuindo para ser lembrada como a Copa da Vergonha. Ora, se estamos à beira do abismo, o que menos precisamos é confusão.
A Copa do Mundo, as Olimpíadas, o Carnaval, os torneios de inverno, os campeonatos de várias modalidades, não obstante a disputa acirrada, são eventos que visam antes de tudo a confraternização entre povos e sociedades distintas, diferentes. E que em tais ocasiões, não se tornem instrumento para o exercício impune de racismo, xenofobia ou que nome deêm ao pior que o ser humano pode produzir. Refiro-me ao tratamento vergonhoso dispensado ao árbitro somali, dentre outras atitudes incompreensíveis. A FIFA é patética. Felizmente, o jogo de abertura, Mexico vs. Africa do Sul, começa no instante em que termino essa crônica…
Proponho a realização de um torneio paralelo: vamos levar o Quarup, a maior competição dos povos indígenas, para o mundo inteiro. Organizemos um grande QUARUP, a grande festa dos povos originários! Que se estenda aos cinco continentes. Muita moqueca, cauim, ayahuasca, mingau de banana da terra e tantas iguarias que nunca faltam numa festa digna do nome! Por nossa conta!

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