JOGADORES FORA DA CURVA

1.
Quem contava isso era meu avô
Que hoje está sereno lá no Céu
Tinha um jogador chamado Miguel
Conhecido pela alcunha Fucô.

Achava todo árbitro neurótico
E com eles fica a discutir
Acusava-os de vigiar e punir
Implicava com o seu poder panóptico.

O gramado era um campo de saber
E as redes tinham amplo significado
questionava o útil e o docilizado.

Chutava a canela do biopoder
Manicômio, sexo, criminalidade,
Duvidava de qualquer neutralidade.
2.
Meu avô já viu jogar muito antes
de Taffarel, vocês não fazem ideia,
Dom Quixote, figura de Cervantes,
abraçava a bola, tal Dulcineia.

Porque ele, além de cavaleiro,
o destemido herói de La Mancha,
também atuou como goleiro
e foi um grande vencedor na cancha.

Esguio, pegava qualquer cobrança;
em sua frente o zagueiro central
que era o amigo Sancho Pança.

Convocado à Seleção Nacional
optou por ir pra outros caminhos
e daí foi lutar contra os moinhos.
3.
Vovô se lembra, apesar de pequeno:
aquele jogador era o Abel,
gente boa, tranquilo e sereno;
chutava muitas bolas para o Céu.

Nelinho avant la lettre, disparava
petardos para além do Paraíso
Deus lhe dizia: tenha juízo!
Então: Caim. o irmão, o invejava.

Perna de pau, um cabeça de bagre,
Caim estava sempre na reserva
não houve um poderoso que o consagre.

Assim, Caim, só comia erva,
Adão até ficava meio cabreiro,
mas Abel, no chute, foi o pioneiro.

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