O DIA EM QUE ROLAND GARROS FOI GERAL DO MARACANÃ

Até parece que começou a Copa. E não foi de chuteira, vinte e dois em campo, juízes na berlinda, técnicos esbravejando na beira do campo. Tinha torcida barulhenta e extasiada. Não sei se o Brasil parou. Eu parei. Sou apologista do talento, da expertise divina, da arte sublime. Eu vi. Numa tarde de sexta feira, quando o mundo debate o bem e o mal, quando o mundo se debate pelo bem e pelo mal que cada um carrega dentro de si, eu vi. Na tela de um celular gago por uma internet falha, no canto de uma sala que acolhe a imprevisível magia do futebol, eu vi. E me emocionei. A cada ponto ganho, a cada ponto perdido, a cada enxugada de suor, a cada explosão de uma gente que aprendeu a vibrar, gritar, cantar, urrar, xingar, delirar, fustigar o outro. Roland Garros teve seu dia de geral de Maracanã. Não importa se o triunfo foi de um rico amparado por todos os privilégios ou um pobre que brilhou apesar dos reveses da vida. Tanto faz. A emoção do esporte bem-feito, a vitória da divina competência não quer saber – e nem deve saber – a origem de tanto talento, tanta competência, tanta concentração. O menino João Fonseca me fez feliz. Minha pátria particular vestiu tênis e segurou raquete. E ninguém, nenhuma orientação ideológica – mesmo a minha -, nenhuma análise social – mesmo as que com as quais comungo- , nenhum despeito vai me tirar este sentimento. Gostei e me embalei. Amanhã, ninguém sabe. Talvez os patriotas de araque queiram tomar para si o verde amarelo que encantou o mundo mais uma vez. Tolos. Incapazes de sentir a força nua e crua, pura e simples, do dom curtido, apurado, maturado, seja qual for a certidão de nascimento. Pelé foi assim. Zico foi assim. Éder Jofre foi assim. Rebeca Andrade foi assim. Medina foi assim. Rayssa Fadinha foi assim. Ayrton Senna foi assim. Berço esplêndido não é onde se nasce. Berço esplêndido é onde o talento sabe se esparramar, perdurar e encantar.

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