O PEREBA ENTRA EM CAMPO.

Acho que sou veterano em Copa do Mundo. Não como o pereba que corre com os pés em dez para as duas, chuta com a canela e nunca acertou meia embaixadinha. Muito menos como goleiro peladeiro míope, que convidava gentil a bola às redes e desesperou amigos entregando o jogo, ora saindo mal do gol, ora devolvendo bolas nos pés dos adversários. Por conta de uma ou outra defesa milagrosa involuntária, fui mantido no time dos amigos de escola ou trabalho, por compaixão ou pelo simples motivo de arrancar gargalhadas. Cheguei a defender alguns pênaltis, sem nunca entender por que os batedores chutavam em cima de mim. Que risco o meu! Escapei de descolamentos de retina, hemorragias estomacais, torções graves nos punhos e boladas entre as pernas, pois sempre me protegi da dor – as mulheres que me perdoem -, mais dilacerante que as contrações de um parto. Mesmo assim, com péssimas credenciais dentro das quatro linhas, sou convocado à nobreza do blog Crônicas da Copa pela, sei lá, enésima vez. Incautos leitores e editores. Crentes que estão colocando um campo um expert em técnica, táticas, estratégias e pleno domínio do artista em movimento, o que, para mim, é o futebol. Até neste conceito sou um impostor: tal definição poética é do Chico Buarque. Aos que não sabem, desde 2022 moro em Lisboa e esta é minha segunda Copa na terrinha acolhedora. Junte a essa experiência, as Copas que vivi desde 1958, o que talvez tenha me dado o direito de expressar minha paixão por um evento que corre nas minhas veias. Não sei se acredito num bom desempenho da seleção brasileira, como induz a publicidade ufanista, que evoca o hexa como se fosse responsabilidade da fé do torcedor. Fico na minha, lembrando que em 70 a seleção mais encantadora da história saiu do Brasil para o México empatando de um a um com o Bangu e um esquálido um a zero contra a Áustria no Maracanã. A questão não é acreditar ou não no time brasileiro. O que me encanta é a mobilização, um remexer feliz no passado, o abraço das pessoas. Copa é Copa. Há 68 anos sou um apaixonado, e a despeito da polarização que contamina o Brasil e o mundo. (Neymar X Não Neymar, Democracia X Incivilidade, Lei Rouanet X Patrocínio do Master, Genocídio X Paz), me reservo o direito sublime de gostar de Copa do Mundo com serenidade e paixão, sem grilhões dogmáticos, ideológicos, politicamente corretos ou incorretos, que se danem. Que soe o apito inicial. Um oásis no deserto é sempre um frescor na alma, instantes quando até os perebas acreditam que são craques decisivos.

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