Fosse eu Nelson Rodrigues, diria que o Monte Sinai e o Mar Vermelho sabiam que o Egito jamais venceria a Argentina. Nem se Ramsés entrasse em campo, nem se a zaga egípcia tivesse Quéfren e Queóps. Nem se a Esfinge parasse de se fingir de estátua e ficasse à beira do gramado dando ordens e enigmas aos jogadores.
O que pode o povo do deserto contra os buenos aires?
Egito ganhar da Argentina? É muita areia para o caminhãozinho deles.
Entretanto, como não sou Nelson Rodrigues, assisti ao jogo clicando trocadilhos no celular.
Egito começa ganhando e Messi era pênalti. Clico: Se Egito ganhar, Messi vai pagar cairo. E o Messi fará oh, onde foi que errei?
Egito faz um gol, e o juiz anula. Clico: é o Zé do Egito contra a praga da arbitragem.
Mas aí o Egito faz outro gol. Então clico: Se o Egito ganhar esse jogo, o futebol é mesmo um sarcófago de surpresas. E será uma vitória piramidal.
Depois percebo que a Argentina melhora. Clico: Hesito se continuo com esses trocadilhos a não ser que a Argentina comece a reagir.
Mas Egito resiste, penso nos sinais do Sinai. Penso que o Mar Vermelho vai abrir de novo. Lá vai o Salá, vai ganhar a Copá?
E clico ainda: O Brasil na Copa tinha dois Danilos que não fizeram pro fumo. O Egito tem o grande Nilo.
Noto que o time vai ficando sem pernas, e aí criou patas. Nossa, que trocadilho infame com a rainha do Egito.
Alguém manda mensagem do Tchan, clico que é o Tutchancã. Tem jogadores do Egito com apelidos de antigos craques, como Dunga, Zico e Trezeguet. Estão mumificados.
Aí o Messe faz um golaço. Clico: o que pode o deserto contra a pujança da messe?
A caravana passa e os campeões correm. E ganham, como Nelson Rodrigues diria, pois já estava escrito nos antigos pergaminhos. O problema de torcer para o deserto é se iludir com as miragens.
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Caio Junqueira Maciel
Caio Junqueira Maciel nasceu em Cruzília, MG. É mestre em Literatura Brasileira pela UFMG. Autor de vários livros de poemas, entre eles, Pele de Jabuticaba, Os sete sábios da Grécia & outros poemas safados e Igrejinha do Rosário (Urutau & Hecatombe). Contista de Cartões de crédito para gastar no inferno (Urutau Hecatombe), Micros-Beagá (Pangeia). Romancista de Um estranho no Minho (editora Viseu). Ensaísta de A escritura do tempo na poesia de Dantas Mota (Appris), O sangue que rejuvenesce o conde Drácula (Caravana). Participou de várias antologias de poemas e contos, entre as quais Jovens contos eróticos (editora brasiliense); Entrelinhas, Entremontes: versos contemporâneos mineiros (Editora Quixote)Todos os Saramagos (Páginas editora) Letrista musical, tem parceria com Zebeto Corrêa nos CDs Trilhas da Literatura Brasileira, Recados de Minas e Era uma voz: sonetos só pra netos. Em 2022 publicou o livro de crônicas Dia das mãos (editora Urutau) e lançará brevemente, para a coleção BH: a cidade de cada um, o livro Floresta(ed. Conceito).
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