Em língua estranha

Na caminhada matutina, imbiquei para os lados da Urca. Sem querer saber de futebol, pesado pelo empate da noite anterior, entrei na pista Cláudio Coutinho.

Onde?

Ah, minha gente, a psicologia revela nossas armadilhas, escarafuncha que escarafuncha, e lá estamos nós nos traindo repetidas vezes. Como é possível não querer saber de futebol passeando na pista nomeada pelo técnico da seleção de 1978?

Coutinho, um militar, deixou muito jogador com a cuca fundida. Dizem que alguns até hoje sonham com a voz ditatorial lhes dizendo: é preciso fazer o overlaping. Acostumados a ordens mais prosaicas – pega a bola e vai, filho -, o estrangeirismo foi um golpe baixo.

É possível que ali tenha se iniciado o processo que alcança seu ápice agora: nosso técnico é um italiano. O papo entre o homem de currículo impecável e os jogadores deve se dar em espanhol, língua que não é de nenhum deles, embora todos hoje entendam o que seja overlaping.

Não sei se é um nacionalismo reacionário o meu, mas as seleções representam pouco os seus países, principalmente as da América do Sul, África e Ásia. Os jogadores saem cedo para a vitrine do futebol, a Europa, e se esquecem até mesmo em que países nasceram.

Diante dessa Babel, sugiro acabar com a Copa do Mundo nos moldes de hoje. As seleções deveriam ser montadas com os jogadores de suas ligas. O time da Inglaterra seria praticamente imbatível, caso as vaidades de seus craques não se devorarem. Seleções da Espanha, da Itália, da França e de alguns países árabes também seriam igualmente fortes.

Duas edições dessas e exportaríamos menos jogadores, fortalecendo enfim a seleção dos residentes no Brasil. Com isso também, um zagalinho qualquer ou telé, teló, tulu apareceriam e passariam a treinar a moçada. O esquema seria simples, pega a bola e vai. Nada de ordem aquartelada em língua estranha.

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