Eu não assisti ao jogo do Brasil com o Japão.
Pelo menos, não a maioria do tempo.
Até tentei. Comecei e esperei que o gol brasileiro saísse nos primeiros minutos, como na partida anterior. Mesmo achando que nosso time jogava bem, o coração estava inquieto. Acelerado.
Assim que o K. Sano colocou a bola na rede brasileira, senti que não ia conseguir seguir acompanhando o mata-mata, que por pouco não me mata.
Troquei a tela pra série da vez e, enquanto tentava me concentrar na trama, fiquei esperando a manifestação dos vizinhos. Se o Brasil empatasse, certamente eu ouviria a vibração deles. Mas o tempo foi passando…e nada. Silêncio total no condomínio.
De vez em quando, eu dava uma espiada, e o placar continuava o mesmo. Até que chegou o intervalo.
Durante praticamente todo o segundo tempo, continuei na mesma, sem coragem para sintonizar na partida.
Após 10 minutos, a vizinhança enlouqueceu e eu soube que tínhamos empatado. Voltei pro jogo pra assistir o replay da cabeçada do Casemiro. Alívio? Nenhum.
Mesmo com o placar novamente equilibrado, percebi que não era prudente ficar por lá. Voltei à série, dividindo minha atenção com ela e com a vizinhança de novo. Silêncio…
Zapeando novamente, percebi que eram os minutos finais e nada mudara. Estávamos nos acréscimos e o medo de tomar outro gol foi maior que a esperança de fazer.
Covarde, mudei de novo o canal, até ouvir o som das cornetas da molecada, junto aos gritos de gol emocionados.
Só então, depois de conferir a façanha do Gabriel Martinelli, tive a coragem de ficar até o apito final.
No primeiro mata-mata, o Japão morreu, o Brasil viveu e eu sobrevivi.
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Fátima Gilioli
Fátima Gilioli. Escritora e jornalista, autora do livro “Código 303 Uma reportagem sobre o alcoolismo, a doença da negação” e da distopia “#EsseFuturoNão!”, é apaixonada pela vida e pela escrita. Também publica matérias, crônicas e contos no blog Vamos Comentar - http://www.vamoscomentar1.blogspot.com. Aventura-se na ficção e na poesia, usando as palavras como ferramenta de luta por um mundo melhor.
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